sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Lock & Mori, Heather W. Petty


Opinião: Este livro está nas minhas estantes desde o ano passado, quando parecia que estavam a sair alguns livros YA baseados em Sherlock Holmes, e eu andava a ler uns quantos, e mandei vir este, curiosa para ver o que sairia daqui. Só que por alguma razão parva (a capa talvez? os modelos parecem uns putos, se bem que vendo ao vivo nem tanto), achei que o livro era bastante mais juvenil que na realidade é, e sei lá, nunca lhe peguei até agora. Não vou dizer que foi isso que me afastou, acho que não, mas também não foi um incentivo. E nunca tinha tropeçado em opiniões que me lembrassem dele, o que é curioso mas explicável, suponho.

Lembrei-me dele por causa duma outra série Sherlock-like que é uma enorme favorita e que é muito, muito, boa: a série Every da Ellie Marney. Isto aconteceu porque eu há umas semanas descobri que a editora americana (a edição que eu estava a seguir) considera não continuar a publicar (só falta um livro, caramba), porque não tem tido muito sucesso por terras americanas. De quem é que é a culpa, quem é? Se tivessem publicado os livros mais próximos uns dos outros, e apanhassem o ritmo de publicação dos australianos (de onde os livros vêm), não tinham perdido leitores para a publicação australiana. Porque quase toda a gente que lê parece ficar louca para continuar a ler, e na altura em que saiu o primeiro nos EUA, o segundo já existia na Austrália, e o terceiro estava prestes a sair.

Concluíndo: fiquei muito aborrecida. E deprimida. E gritei um bocado online com a pobre alma que me quis ouvir, que procedeu a compadecer-se de mim. Já não bastava as editoras portuguesas passarem a vida a fazer isto, grrr. E quando fui de férias há duas semanas meti este no saco, porque já estava na hora, e estava com saudades de, bem, alguma coisa do género, e porque estava com saudades dos meus queridos Wattscroft, apesar de isto não ter propriamente a ver.

E agora só quero bater em mim própria. Porque é que levei tanto tempo a ler isto??? Ainda bem que nunca li as opiniões do Goodreads, porque as que aparecem primeiro são maioritariamente negativas. E nunca estive tão feliz em ir contra a maré. Normalmente não me importo de estar na minoria de uma opinião sobre um livro, ainda que positiva; neste caso, ainda que compreenda porque é que as pessoas se queixam, não me identifico com o que apresentam para não gostar. E suponho que é a única vez em que vou falar da opinião dos outros, porque aqui fiquei mesmo surpreendida por encontrar tantas opiniões menos boas.

Ok, agora é que vamos mesmo entrar no sumo do livro. A minha tendência para tangentes é grandiosa. O livro é sobre um par moderno e contemporâneo de dois dos personagens de Arthur Conan Doyle. Por um lado Sherlock "Lock" Holmes, um adolescente solitário e esperto e ligeiramente estranho que é fascinado com mistérios e deduções.

Por outro, James "Mori" Moriarty (sim, aqui tenho de concordar que é parvo ela chamar-se James, podia ter ajustado ligeiramente o nome), a nossa narradora, uma jovem muito inteligente, com queda para Matemática (o Moriarty original é professor de Matemática), ainda mais solitária, com uma sólida descrença na autoridade (e na humanidade), uma ética e moral, errr, flexíveis, e uma vida familiar complicada.

Os dois cruzam-se por acaso, apesar de frequentarem a mesma escola, e dão com uma cena de crime em investigação. O Lock, pela sua queda para mistérios, propõe que façam um jogo de investigação do crime, a ver quem chega à resolução primeiro, desde que partilhem tudo o que encontrarem sobre o mistério.

Esta é a premissa para a história. E raios, como eu adorei a narradora. Um feitiozinho tramado, desafiador, desconfiado, com um lado negro que ela está desesperada para esconder. A Mori não confia facilmente em alguém, e tem dificuldade com o contacto humano, talvez pela sua personalidade, talvez pela vida familiar. A verdade é que ela está mais à vontade com números, factos e teorias do que com pessoas e emoções. A sua narração é um pouco fria, mas muito cativante devido à maneira como ela funciona.

E uau, a maneira como essas coisinhas chamadas emoções dão cabo dela. Cedo no "jogo", a Mori encontra uma relação entre o mistério e a história da sua família, e o seu primeiro instinto é esconder tudo, investigar sozinha, porque por muito tempo ela esteve sozinha, a lidar com certas coisas em solidão, e com o aparente desinteresse de quem pudesse ajudar.

A verdade é que a situação é mais séria do que aparenta, e com a questão da violência doméstica que predomina em casa, ela sente que não tem outra hipótese. Tal como a solução que no final do livro ela quer dar à coisa; com a sua moral mais flexível, e aterrorizada com os outros caminhos que se lhe apresentam, ela mete na cabeça que só pode fazer aquilo, mesmo que seja a ideia mais idiota de sempre.

O livro tornou-se subitamente mais sério por causa disso, e eu apreciei esse tom. Gosto bastante da sensação de querer que um personagem tenha um final feliz - cheio de arco-íris e unicórnios -, emparejada com o reconhecimento que não é tudo tão fácil assim, às vezes as circunstâncias e as próprias pessoas estão no caminho de ficar tudo melhor, e não é fácil andar de mãos dadas com os nossos demónios sem se perder no caminho.

E pronto, esta é uma série sobre Holmes e Moriarty, suponho que tenha de acabar com o estabelecimento de uma rivalidade. Ainda que essa perspectiva seja desencorajadora. Esse caminho só pode passar por corações partidos e tragédia, e gosto demasiado destes miúdos para antecipar o drama que aí vem com excitação. (Bem, talvez um bocadinho. Eu sempre gostei do drama.)

Pronto, isto ainda é mais intenso e triste porque o Sherlock aqui é um rapaz adolescente adorável. Adorkable, mesmo, algo que nunca pensei que diria deste personagem-tipo. Com um fascínio por mistérios e deduções, mas ainda não o grande detective. Um pouco aluado, socialmente, e solitário, e com os seus próprios problemas. A diferença da Mori é que lida duma forma muito diferente com eles. Aliás, o jogo em si pode ser visto como uma maneira de não ter de lidar com eles.

É claro que se distrai completamente quando ele e a Mori começam a desenvolver uma queda um pelo outro, e é totalmente adorável. Todo desajeitado só para dar as mãos, e todo preocupado e protector quando percebe que a Mori tem problemas em casa, se bem que tenta dar-lhe espaço, como ela pede. Não sei bem o que foi, mas achei-os tão fofos juntos, talvez porque a situação parte de uma certa inexperiência dos dois, mas nunca pareceu infantilizada. Talvez porque ambos estavam num lugar menos bom, mentalmente, e estavam no lugar certo para serem um apoio mútuo. Se bem que há uma miríade de razões para a coisa descarrilar depressa.

O elenco de personagens tem os seus pontos altos, e gostava de destacar os irmãos da Mori (coisinhas fofas, pobrezinhos), o pai dela (a certa altura até achei que ele não era o seu pai biológico, devido à animosidade com que a trata), a Sadie (ainda não acredito que a Heather lhe fez o que lhe fez), e o Mycroft (não consigo lê-lo bem, nem sequer dá para perceber a sua idade, mas o que vislumbramos é fascinante).

O enredo podia ser mais forte, porque o mistério acaba por ser mais ou menos fácil de desvendar, e acabamos por nos focar mais nas emoções e sentimentos dos personagens a todo o cenário; no entanto, acho que também é precisamente esse o objectivo. É bastante interessante ver as coisas desenrolarem-se e ser desvendadas, e ver como os dois protagonistas reagem a elas. Além disso, para um livro tão pequeno, tem tanta coisa lá dentro, e fiquei surpreendida que apesar disso me provocasse uma impressão tão forte.

O fim, bem, já disse, dá a sensação que está tudo quebrado, e que não dá para voltar a colar a jarra exactamente da mesma maneira. É um pouco aflitivo. O Lock é bastante leal à Mori durante a narrativa, mas no fim ela esperava que ele fosse leal de uma forma que não encaixa com a sua natureza, e quase lhe ia custando tudo. Mesmo que certos limites não tenham sido ultrapassados (e quando forem, não dá para voltar para trás), a ideia está lá, e isso é infinitamente perturbador.

Oh, bem, a única coisa boa de eu ter lido isto agora é que só tenho de esperar até Novembro para ler o próximo. Pelo menos desta vez não tenho de me lamuriar sobre ter de esperar um ano. (Ou mais, no caso da Ellie Marney. Mas vou tentar contornar isso.) Estou com muita vontade de ler o que vem a seguir.

Páginas: 256

Editora: Simon & Schuster

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Curtas BD: Lumberjanes, Bitch Planet, ODY-C

Lumberjanes vol. 2: Friendship to the Max, Noelle Stevenson, Grace Ellis, Shannon Watters, Brooke Allen
Bem, as Lumberjanes revelaram-se ainda mais fixes no segundo volume. Admito que tinha alguma relutância em continuar a ler, foi por isso que esperei tanto tempo, porque achei que algo tão extraordinário, excêntrico e bem-amado só me podia vir a desiludir... mas se posso dizê-lo, acho que fiquei verdadeiramente fã das meninas desta vez.

Este volume expande mais a mitologia dos monstros que têm assolado o campo de férias, e com tudo mais a claro, soube-me melhor a leitura, por perceber o que se estava a passar. Não que a história dificulte a compreensão de outro modo, mas raios, gosto de perceber o que se está a passar, ao ver tantas referências meio familiares juntas.

Adoro que a história seja tão positiva e tão boa para o grupo de raparigas, apresentando-as como um grupo unido de amigas. É tão fofinho. Também aprecio que a Jen, a monitora, se tenha juntado a elas e ajudado nas aventuras. (Tinha ficado fã da Jen.)

Todas as jovens têm momentos para brilhar, e gosto muito da personalidade de todas, mas a Ripley é uma enorme bolinha de fabulosidade. Aquilo que ela faz no fim é fantástico e adorável.

Bitch Planet, vol. 1: Extraordinary Machine, Kelly Sue DeConnick, Valentine De Landro
É sempre uma sensação curiosa pegar num livro que tem um destaque tão grande. Entre as expectativas e a realidade, há o perigo de o livro se perder ali no meio. E podia até ser uma coisa bastante fixe para começar.

Neste caso, posso dizer que gosto muito da atitude deste livro. Passa-se num mundo em que uma mulher determinada como non compliant ("não complacente") é presa e enviada para um planeta secundário que funciona como prisão. E NC pode ser algo tão simples como discutir com um homem, não encaixar nos padrões de beleza, ou cometer o grande crime de deixar de interessar ao marido e ser trocada por um modelo mais novo.

Portanto, o livro essencialmente expande certos pontos que assolam a existência de uma mulher ainda nos dias de hoje (gostamos de fingir que estamos no século XXI, mas às vezes ainda parece que estamos no XIX), e usa-os para criar um mundo distópico em que a existência da mulher está imensamente constrangida ao ponto de acharmos ridículo... mas depois podemos pensar um bocadinho e chegar à conclusão que estes aspectos existem hoje no dia-a-dia, estão apenas, er, "exagerados" e condensados.

E portanto a premissa é muito fixe, e a atitude das personagens é fantástica (a Penny é espectacular), e o worldbuilding é impressionante, ao ponto de se sentir a injustiça de certos momentos, mas reconhecer que são honestos.

Os pontos menos positivos no livro são que o enredo em si e as personagens ainda não são muitos claros. Fora duas ou três protagonistas, não faz um bom trabalho em caracterizar, diferenciar e destacar as restantes, o que é uma pena. E o próprio enredo é bastante vago; vai haver um jogo tipo mata, em que uma das equipas é com mulheres da prisão, e...? O livro faz mais por criar o worldbuilding que a preocupar-se com um enredo concreto.

A arte é engraçada, muitas vezes a tentar evocar um estilo de anos 70-80, que é precisamente o objectivo. O fim de cada número inclui uns anúncios falsos bem apropriados ao mundo apresentado, superdivertidos. Só tenho pena de não ter acesso aos ensaios que os números individuais continham. Não tenho maneira de adquiri-los, como imagino que aconteça a muita gente, por isso é um bocado triste não serem incluídos.

ODY-C vol. 1: Off to Far Ithicaa, Matt Fraction, Christian Ward
Uau... este livro é positivamente alucinogénico. Não é para ser compreendido à primeira, muita gente nem se vai dar ao trabalho, não vai ser inteiramente compreensível, e pede várias leituras. É definitivamente desafiador. Challenge accepted.

A premissa é um recontar da Odisseia, no espaço, com personagens somente femininas, num mundo universo em que os homens foram erradicados e existe um terceiro sexo. Confused yet?

Achei fascinante. Muito confuso, e obriga a pensar bem no que se está a ler, e bem, adoro ter nas mãos uma banda desenhada que me desafie assim. A história segue de perto alguns dos acontecimentos da Odisseia, e é contada neste tipo de narração meio arcaica, para evocar as raízes gregas da história.

E caramba, é tão violenta. Sangue e morte por todo o lado, mas a história original é assim, portanto... e há momentos com as deusas gregas (todas a identificar-se como mulheres também) completamente doidos, e tão em linha com a mitologia grega.

E a arte é tão colorida, e vívida e, er, bem, alucinogénica. O trabalho de cor é extraordinário, enche tão bem o olho, e tem destaques fantásticos e lindos.

E pronto, o livro é imensamente complicado, o que não joga exactamente a seu favor, mas é tão doido e diferente que me deixou intrigada o suficiente para querer ler o segundo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

If I Was Your Girl, Meredith Russo


Opinião: Este livro... pessoal do Book Mail YA, muito obrigada por se lembrarem dele. Provavelmente seria uma coisa que não teria pegado, não por causa do tema, mas porque tenho restringido as minhas leituras em inglês a séries e autores que sigo, e portanto outras coisas que me chamem a atenção acabam por ficar numa lista imaginária chamada "talvez um dia... quando eu ganhar o euromilhões e me reformar prematuramente". Mesmo que possam vir a valer a pena. O que é uma pena.

De qualquer modo, fico contente por ter tido a oportunidade de o ter lido. É um livro bastante importante. Uma autora transgénero, com uma história sobre uma adolescente transgénero, com uma modelo de capa transgénero. O esforço por reconhecimento e aceitação de minorias faz-se assim, com passinhos de bebé, e vejo este livro como mais um passinho.

Não é perfeito nem fala por toda a gente que pudesse ser representada por ele, mas faz um bom trabalho em apresentar e normalizar uma experiência de vida, tanto a alguém que possa passar pelo mesmo, como alguém que nunca tenha contactado com a mesma.

A Amanda é uma jovem de 18 anos que vai fazer o seu último ano da secundária numa nova terra, onde ninguém a conhece. Vai viver com o pai, que teve dificuldades de aceitação em todo o processo, aliás, desde sempre; saiu de casa da mãe e do local onde viveu nos últimos anos devido a uma situação complicada em que foi exposta e agredida, como demasiadas vezes é a realidade de uma pessoa transgénero.

Um novo começo permite-lhe dar-se a conhecer sem preconceitos, e a Amanda começa a enturmar-se, fazer amigos, apaixonar-se. A descobrir-se como pessoa, sentir-se bem na sua pele, sem medo. Alguns dos momentos mais impressionantes foram aqueles em que ela morria de medo de ser descoberta, ridicularizada, agredida.

A coisa mais fixe da história é ver a personagem desabrochar, é inspirador ver alguém tão jovem e que passou por tanto, encontrar um tanto de "normalidade", se posso usar essa expressão, da qual não sou muito fã, especialmente no contexto. Mas ver a Amanda conhecer um rapaz, sentir aquelas borboletas no estômago, fazer um grupo de amigas que a apoiam... gostei de acompanhar.

A crítica que tenho a fazer é algo que a própria autora reconhece na nota no final do livro. Em muitos aspectos, a experiência da Amanda é algo "abençoada", no sentido em que passa por alguns desafios que se põem a alguém transgénero, mas não tem de enfrentar muitos deles, ou simplesmente certos pontos da transição são "facilitados" para a história e para o leitor. Por um lado compreendo, o mais importante aqui é a viagem emocional, que é muito boa e me envolveu completamente, por outro lado, também gostaria de ler mais sobre esses desafios.

Outra coisa a apontar é o facto de ser um livro de uma autora que está a começar, e em alguns detalhes nota-se. Oh, acho que emocionalmente fez um óptimo trabalho a detalhar a evolução da personagem, e adoro certos pontos como os flashbacks, para entendermos como a Amanda chegou aqui, ou a lenta aceitação dos pais, especialmente do pai, que no fim estava completamente focado em proteger a filha de tudo e todos, ou a irmandade feminina que se forma entre o grupo de amigas, especialmente depois da revelação (adoro a reacção da Anna, educada num meio hiper-religioso e conservador).

O que queria apontar que se nota de mais inexperiente é... talvez uma certa falta de complexidade no enredo, na narrativa? É bastante simples, e no caso é suficiente, mas também é o tipo de coisa que eu notaria seja em que história fosse. Além disso, a própria história, mesmo tendo os seus dramas, corre muito melhor do que provavelmente seria a realidade, e nisso há um pouco de wishful thinking, suponho, de que seja esta no futuro a realidade para uma pessoa jovem numa situação semelhante. É importante normalizar este tipo de experiência, mas ao mesmo tempo como ainda não chegámos lá, como sociedade, não é inteiramente realista.

Gosto muito de como a história acaba, bastante em aberto, num tom positivo e empoderador, cheia de possibilidades. Faz-me ficar orgulhosa da Amanda e do caminho que percorreu ao longo da narrativa.

Páginas: 288

Editora: Flatiron Books (Alloy Entertainment)

sábado, 20 de agosto de 2016

The New Guy (And Other Senior Distractions), Amy Spalding


Opinião: Este é um livrinho fofito, contemporâneo, mas a longo prazo suponho que não me vá ficar na memória. Sinto-me grata pelo Book Mail YA o ter escolhido, e me ter mandado este livro na sua caixa; conheci uma nova autora, e a Amy Spalding faz algumas coisas giras na sua história. Por outro lado, não foi um livro que me deu vontade de ir a correr explorar o resto dos livros da autora. Uma pena. Tenho saudades de ler uma boa autora contemporânea com um tom tão divertido.

O livro foca-se em Jules, uma jovem que está a começar o seu último ano da escola secundária. Jules é uma aluna top, está sempre em cima do acontecimento, e tem um plano para este ano correr no seu melhor.

Só que tudo descarrila mal o ano começa: Jules é encarregada de mostrar a escola ao aluno novo, Alex Powell. O mesmo Alex que há um par de anos era superfamoso e pertencente a uma boyband. Relutantemente, Jules aceita a atracção que tem pelo Alex, que é genuinamente uma boa pessoa, simpático, interessado, e nada cheio de tiques. A Jules é nova nesta coisa de ter um namorado e passa-lhe um pouco ao lado toda a coisa.

Por outro lado, cartazes a anunciar algo chamado Talon são espalhados pela escola, e quando Jules descobre o que é, parece que os seus planos cuidadosamente elaborados vão todos para o lixo. Tencionava liderar o jornal da escola e deixá-lo no melhor estado possível para os alunos que ficarão à frente dele no ano seguinte; mas o Talon é um canal de TV multimédia que passa durante alguns minutos na escola, dando-lhes efectivamente concorrência no que toca a jornalismo escolar, e Jules teme que o Crest (o jornal escolar) perca com a comparação.

E pronto, este é o centro da história. Creio que é necessário explicar isto porque a sinopse é muito vaga, sem dar ideia do que vai acontecer no livro, e fala de uma traição do Alex sem explicar porque é ele tão importante, e sem dar a entender que isso tem a ver com esta rivalidade jornalística.

É muito divertido seguir a Jules nos seus dramas pessoais, à medida que a rivalidade com o Talon cresce e a sua ansiedade para com o Crest e a sua continuidade cresce também. E também é interessante ver como ela lida com ter um namorado, quando isso nunca tinha acontecido; e ver como se afasta dos amigos e fica enredada no drama com o Talon e esquece um bocadinho tudo à sua volta.

Contudo, o meu problema com a história é que a autora talvez tenha exagerado um bocadinho demais no drama, na maneira como a Jules sente as coisas: fica tão indignada com o aparecimento do Talon, e mete logo na cabeça que isso vai ser o fim do Crest, o jornal, e... sei lá, pareceu-me que era tudo muito a peito; a vontade que me dava era de puxar as orelhas à rapariga e dizer-lhe para se acalmar. Tanta intensidade na maneira como ela levou as coisas soou-me a... falsa, talvez? Nada credível, pelo menos.

E pronto, como isto é o centro da história, pareceu tudo um pouco... demais. Porque de resto a história é amorosa. Os personagens secundários são fantásticos; a Sadie com os seus dramas maternos (a mãe é uma superestrela de cinema e a Sadie tem dificuldade em posicionar-se para além disso), o professor de jornalismo, e o Alex, que é tão fofo e terra-a-terra.

Ah, e as mães da Jules, um casal lésbico que foi introduzido duma forma fantástica. Gostei muito de ler como a Jules cresceu com elas e cresceu com a situação e se sente acerca disso (perfeitamente normal, I mean) e lida com cada uma de forma diferente. As três são adoráveis juntas; as mães da Jules, como ela é tão caseira, encorajam-na a viver um pouco antes de entrar para a faculdade.

Até gostei da Jules, apesar da intensidade com que encara a situação central ao livro. Acho-a engraçada, na maneira como parece ter tudo resolvido e decidido, mas quando encontra um obstáculo, passa-se um bocadinho. E gostei da a acompanhar enquanto descobre algumas coisas que não tinha experimentado, o que a coloca fora da sua zona de conforto, algo divertido de acompanhar.

E pronto, foi um livro bem giro, diverti-me bastante a lê-lo, mas tem as suas falhas, e apesar de não me terem incomodado, propriamente, também não consigo deixar de as apontar. Aprecio definitivamente que a YA Book Mail box me tenha apresentado uma nova autora. Recomendaria para uma leitura mais rápida e divertida, mas há definitivamente coisas que me tenham preenchido mais.

Páginas: 320

Editora: Poppy (Little, Brown)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Uma imagem vale mil palavras: Suicide Squad (2016)

Bem, isto foi certamente uma excelente oportunidade de aprendizagem.

E tenho positivamente montes de pensamentos acerca disto, mas está difícil escolher um e começar. Por onde é que começo? Bem, vamos pegar numa coisa simples, bonita e positiva:

A banda sonora é excelente. Não dou por mim a dizer muitas vezes isto acerca de filmes, porque ou não reparo (normalmente a parte sonora passa-me um pouco ao lado), ou o estilo musical não é a minha onda... mas neste caso, nada disso pesou.

Praticamente todas as músicas com letra usadas chamaram-me a atenção, destacaram-se de algum modo. (Estive tão perto de me abanar na cadeira quando o Without Me começou a passar. Eh.) Uma sensibilidade muito hip-hop, com algumas coisas mais "clássicas", mas funciona muito bem com o tom do filme. E sei lá, estou a ouvir agora as músicas duma ponta à outra e não há uma que eu deteste. Muito bem escolhidas. Apetece-me dar um abraço à pessoa responsável por elas e por ser o ponto alto do filme.

E pronto. Acho que diz alguma coisa quando a coisa a destacar dum filme é a banda sonora, não? Eu queria muito gostar disto. E há partes que gosto. O problema é que, yep, infelizmente toda a gente tinha razão. It's a bit of a mess. Gosto muito de ver estas coisas por mim própria, porque nem sempre concordo com a opinião geral... mas eu dei nas orelhas ao Batman v. Superman (BvS) por ser uma confusão pegada. Este também é uma confusão pegada, ainda que noutro calibre.

Aqui a diferença prende-se com o realizador, creio eu. Não consigo respeitar o Zack Snyder, apesar de ter gostado de filmes dele no passado, porque vi fazer as mesmas asneiras no Man of Steel e no BvS, e tenho a sensação que devia haver alguém por trás a controlar o storytelling dos filmes dele que não ele. Ou um devia ter um melhor editor. Qualquer coisa serve, desde que as suas histórias sejam melhor contadas.

Quanto ao David Ayer, eu vi o Fury. Eu gostei do Fury. Eu gostei do que ele fez com o filme e os personagens. O retrato de um grupo de pessoas completamente destruída pelas circunstâncias (guerra)? Muito bom. Acho que ele seria capaz de dar uma sensibilidade semelhante a este filme. Pegar num grupo de vilões, mostrar como as suas acções os separaram da sociedade dita "normal", mantendo o tom ligeiramente divertido e sarcástico? Suspeito que ele era capaz de o fazer. Matava por ver um director's cut em que ele tinha completo controlo criativo.

Porque suspeito que o problema aqui foi... demasiados cozinheiros a meter o bedelho, e com demasiada pressa para terminar o bolo. Li demasiadas notícias do meio a falar das restrições temporais para a produção do filme, e de como os executivos da DC andavam stressadinhos para que isto tivesse sucesso, para não achar que foi precisamente isso que deu cabo do filme.

Porque convenhamos, onde o filme falha, é precisamente na montagem da história. As transições entre cenas são más, saltam de forma abrupta... parece que ninguém se decidia quanto ao tom do filme, porque as "piadas" acabam por estar mal montadas e cair de pára-quedas nas cenas onde estão inseridas... a caracterização de personagens não é muito boa na maioria dos casos, porque a introdução deles é feita muito à pressa e saltamos logo para a acção...

É-me difícil não relacionar isto com os rumores de que a cadeira do editor foi ocupada por uma série de gente, e com a preocupação dos "executivos" em aumentar o tom divertido do filme porque as pessoas não tinham gostado do tom "escuro" do BvS. Gente, aprendam uma coisa. O problema não era o "tom escuro". Era mesmo a maneira como a história estava montada. E começo a achar que foram pegar numa coisa que estava perfeitamente boa (ou pelo menos melhor que o que vimos), e foram estragá-la. Credo. A incompetência de todo este processo deixa-me boquiaberta.

E o problema é mesmo esse, o pessoal da DC cinematográfica está demasiado desesperado para estabelecer um "universo cinemático" como o da Marvel para apreender e entender as lições que o percurso da Marvel oferece. E se fossem espertos, aprendiam com o que os outros foram descobrindo por tentativa e erro, e faziam melhor.

Lição número um: escolham realizadores adequados para o trabalho. Conheçam o seu perfil. O Thor teve o Kenneth Branagh, o Capitão America o Joe Johnston, os Guardiões da Galáxia o James Gunn, os Vingadores o Joss Whedon. Cada tipo de herói tem o seu perfil mais e menos destacado, cada filme pede um tom diferente. Obviamente que cada uma destas pessoas teria feito um trabalho muito diferente nos filmes uns dos outros.

Lição número dois: saibam o que querem da história. Planeiem a longo prazo. Andamos há tanto tempo a ouvir falar das várias "fases" do MCU, e até acredito que não esteja tudo planeado ao milímetro. Mas os executivos da Marvel sabem para onde vão, por mais vago que isso seja, e dirigem-se para lá, e constroem as sucessivas histórias para lá chegar. É como escrever um livro. Ou uma trilogia. Ou uma longa série de livros.

Lição número três: uma vez escolhido o realizador, dêem-lhe espaço e tempo para trabalhar. E POR AMOR DA SANTA NÃO METAM O BEDELHO. Credo. Parece que cada vez que um filme foi mais fraquinho ultimamente, acabo sempre a ouvir falar de executivos do estúdio a interferir demasiado com a história. E ninguém aprende esta, raios. Se acham que vocês fariam um melhor filme, porque diabos é que são dão ao trabalho de contratar um realizador, hã? Até poupavam dinheiro.

Ok, vamos sair da tangente "porque é que a Marvel está a fazer um melhor trabalho, IMO". Vamos tentar destacar coisas que eu gostei no filme.

Se eu franzir os olhos e fizer um ligeiro esforço de imaginação, eu até gosto do tom do filme e do que estava a tentar passar. Acho que se as circunstâncias fossem ideais teríamos aqui um novo Guardiães da Galáxia. Gosto da ideia dos vilões virarem heróis (era preciso desenvolver melhor as motivações deles para se envolverem), gosto da ideia de só eles serem capazes de o fazer.

Gosto da ideia de haver alguém implacável o suficiente para se lembrar de juntar uma equipa de vilões. Gosto do tom auto-depreciativo e sarcástico e da ideia de todos trabalharem mal uns com os outro até aprenderem a trabalhar bem uns com os outros.

O design tem francamente momentos muito bons no filme. Os símbolos estilizados que representam cada personagem (esta galeria is just lovely), as cenas de apresentação dos personagens (apesar de eu desejar um botão de pausa, porque não deu para ler aquilo tudo, nem de perto), a maior parte dos fatos de cada personagem (o unicórnio do Boomerang! o fato da Harley era divertido, e as tatuagens do Diablo bastante impressionantes), o design da Enchantress e do cúmplice dela, o design do Killer Croc.

Onde o design falha é no Joker. Oh, gente. O Joker tem uma aparência tão icónica e um estilo tão clássico. Era preciso mesmo "datar" o Joker desta versão fazendo-o parecer um gangsta? Ugh, aquelas correntes de ouro e as tatuagens. *facepalm* Onde é que aquilo grita Joker? Não grita. Podia viver com os dentes metálicos, que dão um ar assustador à boca dele sem ter de ir para o sempre presente sorriso desviado. Algumas das tatuagens podem ficar (o sorriso na mão sim; o "damaged" na testa não). O resto? Nop, nop, nop. O resto da roupa já faz um bom trabalho a apresentar e homenagear o Joker.

Em termos de elenco, não tenho queixas. Acho que tentaram fazer o melhor que podiam com o material que tinham. Muitos não têm espaço para respirar (o Slipknot é um desperdício de espaço, só aparece, sem ser apresentado, para lhe acontecer... aquilo). Alguns têm pequenos momentos engraçados ou giros que gostava de ver expandidos (o Killer Croc, o Boomerang, a Katana), e que provavelmente os actores mereciam mais cenas para evoluir o personagem.

Quem tem mais momentos para evoluir e apresentar o personagem, e bastante merecidamente (mas ainda assim partes da caracterização podiam estar melhores), são a Harley Quinn (gostei da personalidade dela, e gostava que a Margot tivesse mais tempo de antena com ela...), o Deadshot (o pessoal não leva o Will Smith a sério, mas o homem dedica-se de corpo e alma aos personagens dele, e não precisa de mandar coisas estranhas aos colegas para fazê-lo), o Diablo (história pessoal bastante interessante, e o que descobrimos dele no clímax da acção é superintrigante), e a Amanda Waller (vá, toda a gente em coro, a Viola Davis é a nossa rainha, seja o que for que ela faça).

Não tenho realmente comentários a fazer para a Enchantress e o Rick Flag, curiosamente. A história deles acaba por ser central à narrativa, mas não gostei de como foi apresentada nos flashbacks, não há peso emocional, e tendo em conta os seus contornos, eles (o pessoal que fez o filme) deviam ter feito a sua história mais detalhada, deviam ter-nos feito preocupar com o que lhes acontecia.

Tenho a certeza que tenho mais pensamentos acerca disto, mas agora não me ocorre mais nada (aposto que cinco minutos depois de clicar em "publicar" me vou arrepender de não ter falado de A, B, ou C), e isto já vai suficientemente longo, por isso vou ficar por aqui.

O que fica deste filme é isto: eu gosto, em teoria, do que podia ter sido, mas não consigo ignorar o que é, e tenho as minhas críticas ao que é. Diverti-me em partes, mas estive sempre ciente das suas falhas, o que não devia acontecer com um filme. E espero sinceramente que a DC aprenda com os erros e melhore, porque tem uma série de personagens fixes à espera do seu lugar no grande ecrã, e seria triste deitar tudo a perder. E por amor da santa, não me lixem a Mulher Maravilha. Nunca mais vão conseguir fazer nada se lixarem a WW.