domingo, 26 de março de 2017

Uma imagem vale mil palavras: Beauty and the Beast (2017)

Estou a ter uma ligeira dificuldade para escrever coerentemente. Este era um dos filmes mais esperados do ano, e a cada notícia e trailer uma pessoa só ficava com mais e mais expectativas - o que normalmente me deixa algo apreensiva. Não gosto de expectativas altas. É difícil de ultrapassar a fasquia que põem.

As boas notícias são que este passa o teste com nota máxima. Não era difícil, bastava seguir a história, mas o melhor de tudo é que o filme tem pequenas adições que eu adoro e me divertem e encantam fabulosamente.

Primeira coisa a destacar (porque eu lhe peguei antes sequer de ir ver o filme): banda sonora. Soa-me perfeita, como uma BSO dum musical soaria, e digo isto no melhor dos sentidos. Quando estou a ouvir a parte instrumental, ouvem-se numa música específica trechos de outras músicas que transmitem uma ideia/sentimento, e adoro isso, as ligações entre partes da história através da música. E há trechos memoráveis, que eu mesmo dias depois de ter visto o filme ainda me lembro. (Ajuda que ouça frequentemente a BSO).

Gosto ainda das ligeiras mudanças que fizeram em termos de instrumentação. Puseram em destaque alguns trechos que soam, como direi, mais franceses. (É onde a história se passa.) As músicas já nossas conhecidas soam-me fantásticas, não perfeitas, mas cativantes. Têm uma ou outra mudança em termos de ritmo. Em geral, fico fascinada a ouvir uma e outra vez as músicas até saber de cor a letra. Já tinha uma ligação emocional com as músicas e esta versão só acentuou isso.

As músicas novas têm os seus momentos. Evermore é talvez um pouco lamechas a mais, mas é operática e transmite bem o estado de espírito do personagem. (O Monstro depois da Belle sair do castelo para ir ter com o pai.) Days in the Sun é bem gira, melhor que a Being Human Again, que era uma adição recente ao filme animado, e transmitindo a mesma ideia. Adoro a sua nostalgia. How Does a Moment Last Forever é fofinha.

O elenco acabou por ser uma surpresa. Acho que a única pessoa que foi bastante óbvia desde o início era a Emma Watson. Quer dizer, para a minha geração, é claro que a Hermione também é a Bella. Duh. Mas não estava a ver como é que o Luke Evans era o Gaston, e céus, é perfeito. Se há pessoa que merece um prémio por se divertir com o seu personagem, é o Luke. Porque o Gaston é tão pateta que um actor tem que se divertir a actuar as partes mais ridículas do seu personagem.

A Emma Thompson também é óptima ideia para a narração inicial da maldição (não consigo deixar de ouvir a sua voz e relembrar certas partes da narração) e para a maternal Mrs. Potts. Gosto do pessoal dos serviçais do castelo em geral (a Audra McDonald como cantora de ópera/Madame Garderobe!). E finalmente acho que posso olhar para o Dan Stevens e não me sentir traumatizada com uma certa cena de Downton Abbey. Só foram precisos 4 anos e porem-lhe uma animação de computador em cima. Nada de substancial.

A história: bem, seguem a história do filme animado. Mas fazem uma coisa que eu apreciei muito: preencheram a mesma. Há coisas no filme animado que damos como garantidas, e coisas que aceitamos ver desenvolvidas da maneira que são porque é um filme animado. São coisas que não resultariam num filme com gente de carne e osso, porque lhe faltaria desenvolvimento de personagens, coerência no enredo.

O que é resolvido com as pequenas adições. Gosto de vermos um pouco mais do passado tanto da Belle como do príncipe, porque condicionam as acções deles no presente e as pessoas que são. Adoro a expansão do carácter do Gaston; de certo modo ele é um vilão ainda mais assustador, porque é claro que está bem ciente das suas acções - não é apenas o tolo bruto e burro do filme animado. (E ainda assim o filme mete-se com ele a torto e a direito.) E adoro a música do Gaston - é bastante interessante que uma música sobre o tipo de masculinidade tóxica do Gaston ("eu sou grande e macho e bom a caçar") é também a coisa mais exuberante e estereotipicamente gay.

Gosto de ver um certo tom mais feminista; a Belle é uma mulher educada e que se tenta educar num meio pequeno, e isso é incrivelmente trágico, porque toda a aldeia a vê como estranha. Há uma certa solidão na sua posição, e ela está ciente disso. (Mas gosto da relação próxima que ela tem com o pai, são amorosos juntos, e gosto de como ela o adora e lhe está grata pela pessoa que é.)

Por outro lado, gosto de como o filme expande um pouco mais a relação da Belle e do Monstro, mostrando-nos porque é que estas pessoas encontraram uma ligação em comum. Em parte, é a coisa da solidão em comum - ambos estão separados da sociedade por razões diferentes.

A personalidade do Monstro é bem engraçada. De certo modo, ele é bastante inexperiente em certas coisas, e isso vê-se nalgumas reacções dele. E outra coisa engraçada é ver alguma da arrogância e pedantismo da sua vida anterior nalguns comentários que faz. Podemos até pensar nele como tendo o tipo de personalidade de um Mr. Darcy - horrível à primeira vista, mas depois começamos a escavar e sai dali qualquer coisa bastante interessante.

Gostei bastante de ver algumas cenas em modo live-action. A música do Gaston, já disse, é genial. A parte do Kill the Beast continua a ser bastante assustadora, não importa que eu já não tenha 3 ou 4 anos ou algo do género. O Be Our Guest continua a ser bastante divertido e colorido, e a introdução do Belle/Bonjour continua a ser fantástica visualmente. Não repetiram as piadas visuais, mas criaram algumas novas bem giras.

O castelo é lindo, gosto mesmo do seu visual; as escadarias que até dão tonturas porque não há corrimãos, a grandiosidade de tudo, o vislumbre da sua anterior glória e a confirmação da mesma quando o castelo volta ao seu estado inicial.

As coreografias de certas partes estão giríssimas - again, o Belle é fantástico -, e o ataque ao castelo também, sem contar com a música do Gaston - oh, e a cena inicial no castelo do príncipe! Por falar nisso, a maquilhagem do príncipe nessa cena é extraordinária.

E continuando nessa linha, gostei mesmo de ver as roupas. A opulência dos vestidos no castelo antes da maldição, as cores das roupas comuns das pessoas em Villeneuve. As roupas do Gaston. As roupas da Belle em geral... o vestido amarelo da Belle, que tinha sido criticado por ser demasiado amarelo - bem, aqui são capazes de lhe ter posto um filtro. É um amarelo mais discreto, mais interessante, e os pormenores dourados mereciam poder vê-lo mais de perto. (E os adereços dela na cena! Perfection.) No entanto, o mais interessante desse vestido é a construção dele, que permite que sobressaia na dança. (De qualquer modo, adorei foi o vestido final da Belle - branco com uns bordados/desenhos florais lindos.)

Acho que a única coisa que me faz espécie é algo que na verdade está de acordo com a época histórica - homens a usar peruca. Acho que nunca vou recuperar de ver o Dan Stevens ou o Ewan McGregor naquelas perucas ridículas.

Não tenho muitas críticas, mas uma é a transição entre 2D/3D. Há cenas que são feitas especificamente para 3D e parecem pouco focadas no 2D (sim, fui ver nos dois formatos). Exemplos são os ramos no quarto da Belle (o fundo está desfocadíssimo mas a imagem é desinteressante no 2D, os ramos não a preenchem), ou certas partes do número Be Our Guest.

Outra coisa... é a expressividade dos personagens que são animados por computador. Conseguiram uma expressividade bastante boa com o Monstro - consegue-se perfeitamente ver certos maneirismos do Dan Stevens -, e a animação dele é um equilíbrio entre ser, bem, um monstro, mas manter expressividade.

Com os objectos é mais complicado. Sinto que aqueles que têm como base um objecto real, como a Madame Garderobe e o Maestro Cadenza, me pareceram mais interessantes do que os que parecem totalmente animados, como o Lumiére. Não é que lhe falte expressividade, exactamente, mas parece menos real, de algum modo. O que é óbvio por ser animado por computador, mas pronto, acho que me agradaria mais feito doutra maneira.

E pronto, acho que me vou calar agora, chega de fangirling. Vou voltar para o meu canto a ouvir a banda sonora sem parar até isto sair em formato físico. Mais uma coisa para eu esperar impacientemente... não é que eu não esteja habituada.

sábado, 25 de março de 2017

Meg Cabot: She Went All the Way, The Boy is Back


Páginas: 368 / 368

Editora: Avon / William Morrow (HarperCollins)

Ahhhh, li o She Went All the Way há que tempos, e costumava adorá-lo. Todas as voltas e reviravoltas e o sarcasmo com o mundo Hollywoodesco... era bastante divertido.

Muitos anos passados, sobrevive ao escrutínio? Bem, sim e não. Ainda adoro o comportamento ridículo que a Meg descreve do pessoal do mundo do cinema, porque é feito de maneira a gozar um bocadinho com a coisa, e é imensamente divertido.

Também me divirto com a loucura do enredo. A maneira como os protagonistas se detestam, aparentemente - a Lou é uma argumentista e o Jack a estrela dos filmes que ela escreve, e a fonte da discórdia entre eles é o ele ter reescrito e actuado numa cena uma frase que acabou por ficar para a história da saga cinematográfica em que trabalham; e também o facto de ele ser um playboy sem rumo e ter partido o coração à amiga da Lou.

E pronto, é incrivelmente engraçado vê-los repensar a posição que tinham um sobre o outro, reconhecer a atracção mútua e agir de acordo com ela. Em adição, a acção do enredo é bastante louca e excitante - tipos aparecem do nada a querer matar o Jack e eles não fazem ideia porquê, e enquanto fogem consegue encontrar abrigo em casas no meio de nenhures.

Contudo, nesta leitura reconheço que preferia que a relação da Lou e do Jack fosse apresentada doutra maneira. O aspecto de eles se conhecerem há imenso tempo devia ser mais sublinhado, como forma de mostrar que já têm química. Devíamos ter mais cenas que permitam perceber que afinal até se entendem, porque já têm uma relação pré-construída antes do livro, ainda que não seja boa. E preferia que as coisas não avançassem tão depressa entre eles; é irrealista.

De qualquer modo, um volume divertido e que permite um bom bocado.

The Boy is Back é inteiramente novo. É um novo volume na série Boy, e como os outros é contado em comunicações entre personagens. Só que desta vez, está actualizado para os novos tempos. Não são só e-mails; são mensagens de texto e transcrições de entrevistas e artigos de jornais e chats/conversas partilhadas em aplicações de mensagens. (Duas personagens do primeiro livro da série aparecem brevemente: a Dolly é agente do protagonista masculino e o Tim tem uma livraria na cidade onde a acção se passa.)

Gostei muito. Adoro a ideia de ter a história contada em mais meios do que nunca, reconhecendo o mundo em que vivemos hoje. Permite alguma versatilidade na narrativa e graficamente o livro está bem giro.

Também gostei de como a parte do romântica do livro se desenrola. Com todas as referências Austenianas, é claramente um ligeiro retelling de Persuasão - dois apaixonados separados pelas circunstâncias uma década, que se reconectam precisamente por causa das circunstâncias.

Além disso, os dois protagonistas são adoráveis. Acho muita piada a como falam um do outro. A Becky tem a certo momento umas reminescências do tempo que passaram juntos 10 anos antes, e é tão giro. Quer dizer, o Reed é praticamente um unicórnio masculino. Aos 18 anos lia muito e lia com gosto Jane Austen. Onde é que isso se encontra, mesmo? (No entanto, adoraria mais cenas com eles a serem fofos um com o outro.)

O drama e as reviravoltas com os personagens também são divertidos - a um certo ponto. O enredo começa com um erro dos pais do Reed, e toda a gente acha que eles estão a desenvolver algum tipo de demência senil. Há partes dessa situação que é explorada com um pouco menos de finesse do que eu gostaria. Na maior parte, até é tratada com respeito, mas há momentos em que os personagens não parecem levar a situação a sério. Acaba por se relevar algo inteiramente diferente, no entanto... e acho interessante a solução que se apresenta.

Por outro lado, a situação dos pais dos Reed também tem outro ângulo, e adoro o drama envolvendo essa pessoa. É hilariante! E totalmente Meg Cabot. Só ela escreveria um personagem a ter um comportamento inicial tão ridículo, e acabar a ser apanhado assim. Muito divertido.

Em suma, uma bela adição à série de que faz parte.

P.S.: Esta capa! Tenho demasiadas poucas capas amarelas, e esta é fantástica ao vivo.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Wires and Nerve, Marissa Meyer, Doug Holgate


Opinião: Raios, esta é uma nova forma de tortura. Já bem bastava ler um livro e esperar um ano para ler a sequela; agora em adição a isso, descubro que tenho direito a ver contadas mais histórias num mundo e numa série que adoro, e é em versão BD... que eu procedo a ler enquanto o diabo esfrega um olho e me sabe a pouco. Podemos saltar um ano, por favor?

Wires and Nerve serve como uma sequela à série principal das Lunar Chronicles: decorre alguns meses depois de Winter, e antes do conto-epílogo presente em Stars Above. O foco está na Iko, que finalmente tem direito ao seu POV e à sua própria história.

O enredo prende-se com uma consequência dos acontecimentos de Winter: depois da derrota de Levana, demasiados híbridos-lobos criados por ela ficaram à deriva na terra, sem controlo. A sua presença é um ponto de tensão política entre a Terra e Luna; e por isso Iko sugere à Cinder que pode ser ela a caçá-los, como uma agente externa.

E pronto, sempre soubemos que a Iko era maravilhosa; esta é só uma maneira de mostrar o quanto. Ela distribui porrada a rodos, e mantém o seu sentido de humor fantástico; e a história tem definitivamente uma certa leveza.

No entanto, gosto que a narrativa também tenha um tom mais sério entrelaçado - é que a Iko é uma andróide, e uma espécie de heroína esquecida por isso: todos os outros personagens são reconhecidos na Terra e em Luna como tendo terminado o reino de terror da Levana.

A Iko, por sua vez, não é considerada um ser sentiente, com sentimentos e personalidade; a individualidade que apresenta é considerada um defeito de fabrico do seu chip de personalidade. É trágico; ela é de fabrico artificial, sim, mas ser considerada menos que humana? Quando demonstra sentiência e personalidade para além da sua programação? É um comentário interessante sobre discriminação e minorias e o modo como achamos tão fácil julgar o que não conhecemos.

Gostei muito de rever toda a gente; a Iko acaba por se cruzar com todo o gang das Lunar Chronicles ao longo da história, e foi uma animação revê-los (e conhecer a sua interpretação gráfica por este artista). Gostei bastante do design de todos em geral, é aproximado o suficiente do que imaginava, mas com a sua própria interpretação.

Destaque para a Winter, que anda no seu papel de embaixadora; para a Cinder, que se esforça para mudar Luna; para a Scarlet e o Wolf, que vivem uma vida pacífica na quinta (e o Wolf está a trabalhar para o que vemos no conto do Stars Above - quero muito ver quando ele conseguir finalmente fazê-lo, mas a Scarlet não ajuda); e para a Cress e o Thorne, que viajam pelo mundo graças à nave Rampion e ao seu papel de distribuidores da cura para a lethumosis. (De todos, aquele que achei mais diferente é o Thorne: senti a falta do seu tom cheio de si... aqui ele está em modo herói, o que não é necessariamente mau, mas divirto-me bastante com a sua personalidade convencida e nada heróica.)

A narrativa faz um bom trabalho a relembrar o que está para trás (não que eu precisasse); quase me atrevo a dizer que é o suficiente para pessoas que ainda não contactaram com a série (se bem que se ainda não leram, estão à espera de quê? é só das melhores séries recentes do seu género), mas a sério, qualquer leitor está a perder muito não tendo lido a série, que é fantástica. E com este volume seria spoilado para os acontecimentos dela.

O enredo dos lobos perdidos começa a condensar-se num antagonista que vai dar muito trabalho à nossa protagonista no futuro, isso é claro; mas tenho toda a confiança e esperança na Iko. Por outro lado, ela volta a cruzar-se com o Kinney, e é tão divertido. Ele pensa dela que é como qualquer outro andróide, e é até um pouco insultuoso na maneira como fala com ela...

... mas há faíscas, e é tão giro de ver a parte final com eles a discutir e a desafiarem-se mutuamente. (E o comentário do Thorne sobre eles é hilariante.)

E pronto, agora estou para aqui a morrer já de saudades. Repetindo o meu comentário do início, já passou um ano? Podemos fazer fast-forward?

P.S.: uma opção interessante, graficamente falando, a de a arte ser em azul e branco. Gosto. Encaixa bem, de algum modo. Muito expressiva, ainda assim.

Páginas: 240

Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)

terça-feira, 21 de março de 2017

Till Death, Jennifer L. Armentrout


Opinião: Há algum tempo que não lia esta autora, e estava com saudades. Especialmente porque de início achei que era uma leitura mediana, boa, mas nada de especial; mas quanto mais penso nela, mas gosto dela.

Till Death conta a história de Sasha Keaton. Dez anos antes, a Sasha viu-se alvo dum serial killer... e escapou. Desde então, ela passou este tempo todo fora da sua cidade de origem; as memórias eram demasiado pesadas para ela.

Uma década depois, a Sasha sente-se preparada para voltar: sempre quis assumir a gerência da pousada da família. Contudo, mal põe os pés na sua antiga cidade, uma série de acontecimentos preocupantes começa a suceder-se, fazendo as pessoas pensar que o assassino está, de alguma forma, de volta. (Tinha morrido dez anos antes.)

E aqui está a minha parte favorita da história: a Sasha. Aquilo por que ela passou pode fazer qualquer um perguntar-se como é possível voltar a ter uma vida depois disso. Mas a Sasha conseguiu. Foi a terapia, e ainda tem pesadelos. Mas a Sasha reconstruiu-se de uma provação incrível. É o que adorei ver nela: convive em sociedade, tem um emprego, viveu algumas relações românticas breves - o que tendo em conta os contornos do serial killer em questão, seria muito difícil.

Acho que posso dizer que esta narrativa, em vez de se focar no trauma, como a maior parte dos livros que têm este elemento do enredo, foca-se na cura. O que impede a história de fazer da protagonista uma coitadinha - faz dela uma sobrevivente e uma guerreira. Gostei disso.

O enredo é um mistério/thriller que envolve a repetição de assassinatos semelhantes aos de dez anos atrás mal a Sasha volta à sua cidade natal; só que o assassino morreu na altura em que ela conseguiu fugir. A razão pela qual eles se estão a repetir é relativamente fácil de adivinhar - ao fim de uma década de Criminal Minds, é fácil de vir à memória, já que é uma reviravolta que é usada pelo menos uma vez por temporada. A pessoa envolvida, no entanto, conseguiu praticamente surpreender-me - só o vi umas páginas antes de ser revelado. E no entanto faz sentido. Em retrospectiva, estava nos sítios certos às horas certas.

Outro elemento interessante da história e da vida da Sasha é o Cole - o Cole era o namorado da Sasha na altura em que foi raptada; e depois da fuga, ela cortou com tudo da sua vida antiga, incluindo ele. Nunca mais se viram ou falaram. Quando a Sasha volta a casa, no entanto, eles reconectam-se; e é como se nunca tivessem estado separados. Esta parte da história deixa-me dividida.

É que por um lado gosto da ideia de um romance em que as partes se conhecem e já estiveram envolvidas no passado - é um atalho para desenvolver a relação, normalmente bem sucedido. É mais credível quando as coisas acontecem mais rápido entre o par. Já têm a química, já se conhecem. Aqui só me queixo de tanta rapidez, não pela falta de química, nem pela situação emocional dos dois; queixo-me porque a separação foi abrupta, e por um constrangimento externo que afectaria a sua relação tivesse a Sasha ficado ou não.

E por isso sinto que eles deviam ter passado algum tempo a falar disso, a reconectar-se verdadeiramente, a reaproximar-se - passaram dez anos, não são as mesmas pessoas. E no entanto de repente estão nos braços um do outro, a declarar amor eterno. Lamento, mas a minha suspensão de descrença não é assim tão abrangente.

Outras coisas boas da história: a mãe da Sasha, uma sua apoiante incondicional - e quão difícil deve ter sido para a senhora ver a filha passar por tudo. Mas a atitude dela é tremendamente positiva, e muito preocupada com a filha, sem a sufocar. Ah, e gostei imenso da Miranda, uma amiga da Sasha com quem se manteve em contacto, e que tem uma atitude fantástica.

(Oh, e mais uma coisa: gostei do ambiente de cidadezinha pequena, e de como os personagens vivem satisfeitos nela, ou retornam a ela. Demasiadas vezes em livros dos EUA a narrativa foca-se em cidades grandes, e esta diferença é refrescante.)

Em suma: gostei. Não é extraordinário ou algo que me apaixone de modo a eu evangelizar qualquer leitor que me apareça à frente, mas tem a qualidade e capacidades a que a Jennifer já nos habituou, e tem muitos pontos agradáveis na narrativa, capazes de cativar o leitor.

P.S.: HarperCollins, que diabos é que se passou aqui? O meu exemplar é a coisa mais estranha de sempre. Tem a largura dum mass market paperback (os livros de bolso mais pequenos), e a altura dum trade paperback (os livros de bolso médios); ou seja, acaba por ser um livro completamente desproporcional, demasiado comprido para a sua largura. Não faz sentido algum e gostava de saber o que lhes deu para fazer isto.

Páginas: 400

Editora: William Morrow (HarperCollins)

domingo, 19 de março de 2017

The Last of August, Brittany Cavallaro


Opinião: Ok... acho que me divirto demasiado a ler sobre pessoas que NÃO são nada bem resolvidas. A sério, esta série tem um feudo épico entre famílias - a premissa é que Holmes, Watson e Moriarty foram reais e que estamos no século XXI a ler sobre os seus descendentes -, e raios, a extensão a que membros Holmes e Moriarty vão para alimentar a violência do feudo. Estou um pouco traumatizada.

Neste segundo volume da trilogia, Jamie Watson e Charlotte Holmes estão a passar as férias de Natal no Reino Unido, visitando primeiro a mãe dele e depois ficando na mansão da família dela. Mas cedo os seus planos descarrilam; o tio dela, Leander, desaparece misteriosamente e acabam a viajar para Berlim (e Praga), para continuar a investigar o que ele investigava, e tentar descobrir uma pista acerca do seu desaparecimento.

Continuando a partir da ideia que apresentei ali no primeiro parágrafo, adoro seguir o Jamie e a Charlotte. Oh, eles precisam de resolver muitas coisas para serem membros contributivos da sociedade e estar um com o outro romanticamente, mas são certamente divertidos de seguir. Este livro evolui nesse campo, à medida que tentam entender o lugar do outro na sua vida, e discutem imenso e fartam-se de fazer asneiras...

No entanto, gosto de os ler porque acredito que são capazes de chegar a um ponto em que deixam de ser tóxicos um para o outro. O Jamie precisa de certamente trabalhar na sua raiva e em parar de se torturar por coisas que não fez - e parar de se torturar acerca da Charlotte e de esperar algo dela que ela não está preparada para dar.

A Charlotte, por sua vez, precisa de lidar com o que lhe aconteceu (e tendo em conta a sua educação e como cresceu, e a família que a rodeia, raios, como isso é difícil), e precisa aprender a não ver logo o pior fim possível e a confiar nos que realmente o merecem. E bem, ajudava não estar desesperada para entrar no feudo e ajudar a família das piores maneiras possíveis. (Mas isto sou só eu.)

O enredo é incrivelmente louco, acelerando por metade da Europa e atirando-nos revelação atrás de revelação. Gostei maioritariamente, ou melhor, gostei do que a autora estava a tentar fazer, mas sinto que a execução não é das melhores. A montagem do enredo podia ser melhor, menos confusa e mais focada.

Há partes em que é preciso reler para entender - o fim é uma delas -, e como se baseia em coisas escondidas do narrador, e consequentemente do leitor, durante a maior parte da narrativa... bem, quando essas coisas são reveladas adicionam mais confusão do que esclarecimentos acerca do que se está a passar. Não ajuda que sejam reveladas quando já não há tempo e espaço na narrativa para lidar com elas.

Há alguns personagens secundários que gostei de ler, e acerca dos quais gostaria de saber mais. Por exemplo, Emma Holmes, a mãe da Charlotte, que tem um certo espírito e resiliência, e parece ter menos paciência para o drama Holmes-Moriarty, apesar de ser apanhada nele também. E o tio Leander, amigo do pai do Jamie, e com uma mão-cheia de histórias para contar. Outro com pouca vontade de se meter no drama e involuntariamente envolvido nele.

Ainda há August Moriarty. Tenho pena do August. Acho que ele genuinamente é um dos melhores, disposto a estreitar pontes entre as duas famílias e acalmar as guerras entre ambas. É um produto da sua educação e nem sempre tenta cumprir esse objectivo da melhor maneira, mas a sua posição única faz dele um pouco um cordeiro sacrificial, e isso é entristecedor.

O fim, já disse, é incrivelmente confuso. Nem sequer é pelo cliffhanger - seria de esperar, num livro dois de três -, é mesmo pelas motivações de toda a gente e tudo o que estão a fazer e o que acontece de trágico e como isso tem um impacto no que estava a acontecer, e ainda o que estava a acontecer por trás da cortina. Basicamente, demasiado a acontecer, demasiado pouco explicado, demasiado pouco tempo dado para lidarmos com isso.

Estou tão frustrada. É que eu gosto da série e da história e dos personagens, e tolerei o enredo enovelado, mas este fim parece uma confusão pegada. Não é que me faça desistir de continuar a ler (gosto demasiado dos personagens para isso), mas não vejo a necessidade de fazer uma coisa tão complicada. Alguém na equipa de edição estava a ler com atenção?

Enfim. De qualquer modo, é claro que estou com vontade de continuar a ler. Vou esperar não tão pacientemente que passe um ano, porque tendo em conta o que entendi do fim, acho que o terceiro livro vai ser deveras interessante.

Páginas: 336

Editora: Katherine Tegen Books (HarperCollins)