quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Their Fractured Light, Amie Kaufman, Meagan Spooner

Sinopse

Opinião: Ah, comecei o ano dominada por uma sensação, uma vontade, parecidas com o que me fez ler o Boundless da Cynthia Hand o mês passado: queria terminar mais uma série. Contudo, a minha reacção durante e após a leitura não podia ter sido mais diferente; não tive dificuldade nenhuma em voltar a mergulhar no mundo desta trilogia, e o livro não teve problema algum em cativar-me. Até posso dizer que deixou um pequeno vazio no lugar onde roubou um canto do meu coração. Fiquei curiosamente ligada a ele, tanto pela nostalgia dos livros anteriores e de rever os seus protagonistas, como pela história destes dois protagonistas.

A Sofia Quinn já nos foi apresentada no livro anterior. Veio de Avon e passou um longo ano a melhorar as suas capacidades e aprender novos truques; a Sofia é brilhante a ler pessoas e a enganá-las e manipulá-las conforme o seu interesse. Para ela, e com ela, é bastante difícil saber o que é verdadeiro, real, e o que é a pessoa construída para apresentar aos outros. É o conflito principal interno dela.

O Gideon também já é nosso conhecido. É o Knave of Hearts, um hacker que ajudou a Lilac e o Tarver no segundo livro. A sua motivação para ser o que é hoje vem de uma tragédia pessoal familiar; fez algumas coisas menos ortodoxas na perseguição de justiça para essa situação, mas vai compreender que os fins nem sempre justificam os meios. O seu conflito vem dessas acções e do impacto que tiveram em outrém.

Ambos juntam-se porque têm um alvo em comum: LaRoux, o homem à frente duma corporação multimilionária, cujas acções ao longo do ano têm feito tantas vítimas e inimigos. A Sofia e o Gideon são apenas mais dois, e o início do livro passa precisamente por se tentarem infiltrar na sede das Indústrias LaRoux para obterem uma forma de encontrar justiça e/ou vingança. Só que a coisa não corre assim tão bem, e acabam a juntar-se para sair dali e fugirem à perseguição de que são algo pela corporação.

E pronto, não sei se sei explicar porquê mas fiquei incrivelmente cativada pela história deles. São obrigados a trabalhar juntos por força das circunstâncias, já que nenhum é muito bom a confiar em ninguém. Mas os pequenos momentos de vulnerabilidade que se permitem são tudo: acho que me fizeram torcer mais por eles. Custava-me horrores quando a Sofia tentava repor a sua pessoa invulnerável e manipuladora, ou quando o Gideon falhava em compreender o que tinha feito, e pior, não ter sido honesto mal pôde quando compreendeu.

Contudo, foi delicioso de ler por causa disso. Dois personagens a resistir porque têm coisas a fazer e têm que ser feitas. Consigo respeitar isso. E ainda assim, partia-se-me o coração ver a Sofia pensar em trocar-lhe as voltas, usá-lo como forma de voltar a ter os pés assentes no chão depois de perder tudo; ou de ter vontade de gritar com ele por não estar a entender o mal que tinha feito.

Ainda mais para a frente, antes do clímax do enredo, eles têm um momento perfeito, adorável, delicioso, de partir o coração. É escrito duma forma emocional e incrivelmente credível no que toca ao percurso emocional deles; ainda não estavam completamente preparados.

E depois o final vem mesmo a calhar, finalmente a compreensão do que lhes escapava, de que há outra maneira de fazer as coisas. E isso permite-lhes permitirem-se ficar juntos, se assim o desejarem e se as circunstâncias deixarem. Não sei, há qualquer coisa neste percurso que me caiu no goto e se mostrou particularmente realista para mim. Não sei explicar o quê. (E só tenho pena de não terem mais tempo de antena e poderem explorar este aspecto.)

A primeira parte do livro é muito sobre a Sofia, o Gideon e a Sofia e o Gideon, mas também sobre avançar o enredo particular do livro, e talvez um bocadinho do enredo geral da trilogia; mas a segunda parte é dedicada largamente a fechar com chave de ouro este último.

Tudo o que queríamos saber é respondido, a mitologia destas criaturas que têm vindo a permear todos os livros é francamente explorada. Esta segunda parte está recheada de surpresas quanto a elas e quanto à maneira como a narrativa evolui, mas diverti-me deveras a acompanhá-la. Gostei de explorar estes aspectos. (E de ler as páginas entre capítulos, da perspectiva das criaturas. Muito esclarecedora, e algo impressionante e assustadora.)

Também adorei a segunda parte por uma razão: a Lilac e o Tarver, e a Lee o Flynn aparecem! E bem! Foi tão excitante rever personagens de que gostei tanto. E dei-me conta duma coisa: não há livros suficientes a mostrar o depois de um casal se juntar. Eles a serem carinhosos um com o outro aos pares foi incrivelmente fofo, raios.

E pronto, adorei que os protagonistas dos três livros se juntassem para resolver a trapalhada que se andava a desfazer desde o primeiro livro. Algo de horrível acontece a meio da sua demanda, e é tão difícil manter a coragem e o espírito depois de uma tragédia tão grande (tanto a parte pessoal como a parte externa da mesma). Mas eles mantêm-se fortes, e conseguem juntos algo extraordinário que acredito que não conseguiriam separados.

Sim, aquele final matou-me da melhor maneira. A tortura foi enorme, pensar que as coisas iam correr assim. Mas suponho que posso dizer que obtive a minha satisfação na melhor maneira possível. O último capítulo é uma espécie de epílogo que deixa passar um pouco de tempo, o suficiente para vermos a reconstrução. E dá-nos uma notícia brutal que me deixou felicíssima de maneira parva, porque mostra um pouquinho do futuro de alguns dos personagens, e é glorioso.

E pronto, agora estou para aqui a fazer o luto desta série, com umas saudades enormes. Nem consigo acreditar que me tenha caído tão bem, especialmente este último livro, lido tão distante dos anteriores. Estou a ver que estão a aparecer umas séries giras passadas no espaço e/ou no futuro da humanidade, e estou a gostar de ver. Sei que vou ficar tristíssima quando terminar a série do Illuminae este ano, e ambas até partilham um autor (a Amie), portanto... vou torcer para que alguém continue a escrever séries do género? Ambas têm uma premissa e um tom que se coadunam, e gostava mesmo de ler mais. Muito mais.

Páginas: 432

Editora: Disney Hyperion

domingo, 15 de janeiro de 2017

Curtas BD: Graphic Novels da Marvel, vols. 26, 28 e 29

O Poderoso Thor: Em Busca dos Deuses, Dan Jurgens, John Romita Jr.
Ok... não estou a ver porque raios é que o Thor precisava de um reboot, mas eu claramente não andava a ler banda desenhada (não de super-heróis, pelo menos) nos anos 90, e por isso a coisa pode passar-me ao lado. Mas nunca fui muito à bola com esta história de o Thor estar ligado duma forma arcana a um tipo humano chamado Donald Blake.

Quero dizer, como é que isso funciona? Em termos físicos? Logísticos? Eles partilham um corpo? Uma mente? Duas mentes num corpo? São uma e a mesma pessoa ou duas diferentes que existem no mesmo espaço físico? São as perguntas que me mantêm acordada à noite. (Ou não.)

De qualquer modo, a maior parte das histórias com o Thor parece ignorar este pedaço de mitologia (ou então nelas o pessoal, muito avisadamente, fê-la terminar), e gosto mais do Thor em modo deus nórdico mesmo - os problemas domésticos dele parecem-me mesquinhos comparados com o tipo de coisas com que ele costuma lidar nos comics.

E portanto não sou fã de vir a ler um livro que pega na mesma premissa, um tipo que é "fundido" com o Thor. Ainda por cima foi trazido de volta à vida. E isto tudo pela razão mais estranha de sempre, o Thor sente-se culpado por o tipo ter morrido no meio duma batalha em que o Thor intervinha. Mas o Thor não teve intervenção directa na morte do tipo. É, infelizmente, um dano colateral, e seria uma boa forma de reflectir sobre o que acontece às pessoas comuns apanhadas no meio das lutas de super-heróis. Mas para este pessoal o mais importante mesmo é meter ali o Thor a ter de lidar com os dramas comuns da vida enquanto distribui porrada.

Fora isso (os dramas domésticos, quero dizer), a história pode vir a ser interessante, porque parece ter um âmbito mais épico. Peca por o volume terminar num cliffhanger. Mas parece promissor, com os conflitos entre panteões de vários deuses. E tem algum humor e alguns momentos em que revemos coisas da mitologia e história passada do Thor.

A arte do Romita, bem, entranha-se. Começo a conhecê-la, e dá algum conforto, estar familiarizada com ela. É adequada para o tipo de história. Começo a achar que ele não tem variedade nenhuma de expressões e desenhar caras, mas pronto. E acho que já sei de BD o suficiente para dizer que me parece que ele estava a canalizar o Jack Kirby e os seus Novos Deuses, o que é uma homenagem gira e adequada para os personagens que são deuses. (Houve um que me fez pensar duas vezes se não era o Darkseid ou um primo.)

1602, Neil Gaiman, Andy Kubert
Como se já não tivesse lido suficiente BD excelente do Gaiman este ano. (O ano passado, quero dizer.) Já tinha lido, cortesia da Devir há muitos, muitos anos atrás. E devo dizer, aguenta muito bem a passagem dos anos. Ainda é muito bom.

1602 reimagina o Universo Marvel se uma impossibilidade acontecesse e desse início à era dos heróis... centenas de anos antes. Essa presença foi, aparentemente, influenciadora da aparição daqueles que conhecemos como mutantes (conhecemos a versão original da equipa dos X-Men ao estilo século XVII), ou de mágicos e físicos (o Dr. Strange), ou de superespias e cegos com capacidades extraordinárias (a Viúva Negra e o Demolidor, respectivamente).

É tão divertido percorrer estas páginas e reconhecer as referências, por mais óbvias ou obscuras que sejam. (Calculo que algumas me tenham passado ao lado, mas enfim.) E melhor, os personagens que conhecemos estão indelevelmente inseridos no espaço e época em que existem. A descrição e apresentação dos mesmos são genuínas. Isto é mesmo a Inglaterra de Elizabeth I, e a Espanha da Inquisição. (E a Latvéria do Dr. Destino. Ehehe.) Mas é o tipo de trabalho que, depois de Sandman, esperaria do escritor.

O fim deixa-me triste e com vontade de ler mais, porque a premissa é tão boa que merece ser explorada. (Parece que foi.) A arte, por sua vez, é mesmo o tipo de coisa que aprecio. Adoro este estilo desenhado e pintado, e adoro as referências visuais no design dos personagens. Muito bom.

Eu, Wolverine, Chris Claremont, Frank Miller
Ah, estou a ficar um nada cansada de todos os livros em que o Wolverine é mau, mas "bom naquilo que faz". Nada culpa deste livro, que é o original, aquele que dita essa abordagem ao personagem, mas pronto. Não foi o que eu li primeiro, portanto leva com o meu cansaço acerca de tudo isto.

Este é interessante e ao mesmo tempo, não-tão interessante. Gosto da expansão que fazem à história pessoal do personagem, de entender a ligação dele ao Japão e como isso guia a mitologia do personagem. Gosto da ideia de uma história que fala de honra e guia os personagens com um código de comportamentos diferentes do ocidental, criando um choque de culturas.

Não sei se sou tão fã do tratamento de algumas coisas dessa cultura. A Yukio é fixe, mas um pouco cliché quando fica obcecada com o Logan. Acho que a Mariko podia ter mais garra, mais qualquer coisa. A história confina-a ao papel da filha obediente, mas ela podia ser isso e ainda assim ter uma certa personalidade. Algo que a distinguisse daquilo que os outros tendem a fazer dela.

Além disso, o pai dela morre às mãos do Logan, e ela no fim faz um discurso a desculpá-lo, que o pai tinha desonrado a família e merecia. Ideia? Devia ter sido ela a ter direito a essa morte. Seria tão fixe, depois de ser um joguete nas mãos dos outros, ela tomar rédeas do próprio destino. E tornar-se uma companheira à altura do Logan, no que toca a sangue frio.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Química, Stephenie Meyer


Opinião: Um dia hei de reler a série do Crepúsculo. Tenho saudades da voracidade com que esses livros se liam, a tábua rasa que era lê-los quando ainda não tinha lido mais nada no género, a tortura que era esperar pelo próximo livro, passar esses tempos visitando a página web da autora. Mas depois os filmes foram feitos, os problemas que a história tem foram apontados e tornaram-se difíceis de não ver, e o fandom implodiu e eu fugi na direcção contrária porque não tenho paciência para gente a discutir por coisas parvas. (E havia muita parvoíce nesses dias. Oh, se havia.)

De qualquer modo, sei que não seria a mesma coisa. Ninguém me pode impedir de olhar para esses tempos com nostalgia, no entanto. Suponho que isso terá tido algum peso na minha decisão de querer ler este livro. Estava curiosa. Queria saber se ela ainda seria capaz de manter a sua audiência cativa, se teria evoluído alguma coisa desde então.

A resposta curta: sim, e mais ou menos.

A resposta longa: bem, sim, manteve-me cativada por toda a narrativa. Mesmo nos tempos mortos da história (e houveram alguns, um pouco longos até), li com vontade, sem morrer de tédio. É uma coisa boa na minha perspectiva. A premissa é interessante, e o enredo dá reviravoltas excitantes o suficiente para manter o leitor a virar páginas.

O enredo podia ganhar um bocadinho com um ajustar da narrativa, contudo. Há ali um interlúdio na quinta com os cães - e eu gostei dos cães, eu adorei a ideia dos cães -, mas reconheço que pouco faz para avançar a narrativa, e irritou-me que o enredo forçasse os protagonistas feminina e masculino a ficar para trás. Não me pareceu do feitio dela, pelo menos, fazê-lo. Sim, gostei de conhecer os cães e ver o que era ali feito com eles, e ver as potencialidades deles, mas esta parte podia ser afinada que não perdíamos nada com isso.

Também há ali uma parte antes do clímax em que os personagens andam a fazer COISAS para o preparar, e acho que essa parte podia ficar mais clara. A maneira como isto tinha de encaixar com aquilo e fazer aqueloutro assim e assado é um pouco confusa.

Por outro lado, a parte inicial e a final são bastante excitantes por si próprias. A final porque fecha a história e fez-me roer as unhas um bocadinho, apesar de calcular que tudo se resolveria a meu contento. A inicial porque estabelece a premissa rapidamente e duma forma brutal. A protagonista anda a fugir há três anos, e as medidas que ela toma para se proteger são duma paranóia tal que assusta. Mas foram o que a salvou de três tentativas de assassinato antes, portanto podemos ver que são efectivas, ainda que incrivelmente complicadas. (Não consigo imaginar dormir com uma máscara de gás, mas uau. Belo pormenor.)

Quanto à evolução, bem... tenho alguns problemas com a maneira como certas coisas evoluem. Acho a relação dos dois protagonistas assim muito para instalove, toda aquela coisa da ligação intensa e rápida que não lhes dá tempo para se conhecerem e isso. É um pouco cliché quando eles estão a jurar devoção mútua e tudo o mais.

A segunda parte do meu problema é que ela inicialmente, por uma manipulação bem feita, tortura-o. (Era o trabalho dela antes de andar fugida.) E portanto a Stephenie tem estômago para fazer a cena, e é impressionante, mas depois não tem estômago para lidar com as consequências dela. Seria genial partir dessa cena e lentamente reaproximar os personagens, fazendo-os lidar com as consequências da mesma.

Mas o que ela faz não é isso. O Daniel basicamente parece não se importar de ter sido torturado (e nem sequer por uma boa razão). Ele simplesmente compreende que a protagonista foi manipulada, e continua a fazer-lhe olhinhos. Vá lá, ninguém é tão ovelhinha como isso. Teria sido mais interessante vê-lo interessado na protagonista, mas ter de lidar com o medo e impotência que a tortura lhe tinha trazido. Isso é que seria um bom tema para os momentos mortos do livro. (Não a quinta dos cães. Se bem que, já disse, a quinta dos cães é um conceito fabuloso. Apenas não para este livro.)

Por outro lado, gosto da inversão de papéis entre eles. A Alex é a predadora, a alfa na relação, o Daniel o beta, inexperiente no jogo de espionagem, sempre a meter a pata na poça. (O Daniel é basicamente a Bella, em muitos aspectos.)

E tenho a dizer que a descrição da psicologia da protagonista é algo impressionante. A Alex (é o nome que ela usa na maior parte do livro, mas não o seu nome real, e nem sequer o único que usa - e a narrativa faz um bom trabalho a mostrar quando ela veste a pele duma nova personagem) está fugida dos patrões há três anos, e como disse ali em cima, a paranóia com que toma cada acção é impressionante. As trocas e baldrocas que ela faz só para se aproximar dum antigo patrão são fantásticas.

Melhor, gosto imenso da premissa do que ela é. A Alex foi contratada no passado para trabalhar para o governo, numa agência secreta sem nome que a pôs num laboratório hipermoderno, a criar todo o tipo de substâncias - com o propósito de serem usadas em tortura, sem deixarem marcas. De início era só no laboratório, e a perspectiva de ajudar o país, travar crimes e mortes era apelativa.

Mas depois ela começou a ser escalada para aplicar as substâncias, e um dia ouve algo que não devia ouvir. Ela nem se apercebe da importância, anos mais tarde nem sabe que é por isso que está a ser perseguida. Mas um dia uma tentativa de assassinato põe-na em fuga, e três anos depois aqui estamos.

Gosto mesmo desta ideia, é fascinante e talvez um pouco mais inteligente do que daria crédito à autora. Não é o tipo de coisa que se veria habitualmente num thriller, creio eu, e por isso, pontos bónus. Permite que a personagem seja uma heroína de acção, sem ser necessariamente uma espia - o que lhe permite cometer erros e meter os pés pelas mãos de vez em quando.

Destaque ainda para o Kevin. A revelação da relação dele com o Daniel parece uma coisa saída de uma telenovela mexicana, de tão óbvia que é. Mas são giros juntos. E gostei da personalidade dele e de andar sempre às turras com a Alex. Algumas cenas com ele são tão divertidas. E claro, a ideia dele de treinar os cães da maneira que treinou é fabulosa. Só me partiu o coração quando as coisas descarrilam na quinta. Espero que eles tenham voltado pelos cães.

Oh, e já agora? Alguém que escreva um livro para a Val. Parece ter uma vida imensamente excitante. Seria interessante ler algo do ponto de vista dela.

Por fim... acho que posso dizer que não é a reinvenção da roda, mas também não é tão mau como pensava. Suponho que as minhas expectativas eram bastante baixas, mas posso dizer que pelo menos é capaz de proporcionar um bom bocado em termos de leitura. Comprei este inteiramente com um vale e ainda bem que o fiz, porque se tivesse sido mesmo mau estaria a chorar o meu rico dinheirinho, mas depois de ler não me importaria de o ter apanhado com uns 20% de desconto.

Uma nota final, em que questiono a decisão da editora original de publicar este no dia em que publicou. 8 de Novembro, data da eleição mais histórica que os EUA poderão ter tido. A sério que foi boa ideia publicar isto nesse dia, tivesse dado a eleição para qualquer um dos lados? É a Stephenie Meyer, eu sei, mas nem ela move multidões desta maneira. Já não. Passaram-se semanas até começar a ver algumas opiniões de jeito no Goodreads. Parece que não estavam à espera de muito, nem sequer vi um marketing muito agressivo nem nada. Suponho que teriam as expectativas baixas e a partir daí tudo era lucro, mas mesmo assim...

Título original: The Chemist (2016)

Páginas: 544

Editora: Presença

Tradução: Maria de Almeida, Cristina Carvalho, Fátima Andrade

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Chave de Bronze, Holly Black, Cassandra Clare


Opinião: Oh, céus. As coisas ficaram MESMO sérias de repente. Ou talvez não tão de repente, mas raios, aquele final? Estão a tentar matar-me do coração, é? Ainda estou um pouco traumatizada, mais de duas semanas depois. Isto é suposto ser MG/juvenil! Não é suposto ficar tão pesado e descarrilar sem aviso!

Ah, quem é que estou a enganar? Gostei mais dele por isso mesmo. Nas opiniões anteriores queixei-me um pouco de achar os livros "simples" no desenvolvimento do enredo e dos personagens... este volume compensa muito.

Quero dizer, o enredo resumido ainda assim pode ser considerado "básico"... o Call, o pai e os amigos vão ser homenageados pelos mágicos por trazerem provas de que o Constantine Madden está morto; contudo, na cerimónia, torna-se claro que alguém persegue o Call, e que a sua vida poderá estar em perigo - pior, a sua outra identidade poderá também estar em perigo, já que Call pode estar a ser perseguido por causa dela. O enredo centra-se nas tentativas do trio e companhia de descobrirem quem é o culpado.

Só que finalmente a história está a ficar um pouquinho mais complexa. A identidade do Call é um ponto de conflito fascinante - é-lhe difícil confiar em quem seja além da Tamara e do Aaron, e agora até tenho pena que ele nunca tenha contado ao mestre Rufus. A questão da identidade também gera uma boa dose de tensão, na incerteza de vir a ser revelada. Foi muito excitante acompanhar esta situação.

Também há certos aspectos dos personagens e das relações entre eles que estão a ficar mais complexos. Acho muito interessante esta situação de como o Call "lê" a relação do trio: ele acha que a Tamara escolhe sempre/prefere o Aaron. E eu até percebo porque é que ele pensa isso, mas pergunto-me se será pela razão que o Call acha que é - que a Tamara está/pode vir a estar interessada no Aaron. Não será mais ao contrário? Ela dá-se melhor com o Aaron porque o vê apenas como um amigo, o que poderia não acontecer com o Call, e sentir-se mais tímida com ele?

Porque quando as coisas ficaram sérias, ela protegeu-o a ele, o que me parece significativo, apesar de certamente vir a ser um ponto que os vai separar no próximo livro. De qualquer modo, os ciúmes do Call são adoráveis. Do género "depois eles vão fazer um casal e eu vou ficar sozinho a fazer de vela", apesar de eu achar que ele está a saltar para conclusões precipitadas. E talvez o Call tenha ciúmes por causa da Tamara. Ou talvez não. Talvez seja pelo Aaron. Seria igualmente fofo. Não preciso que se forme um casal entre o trio, mas as circunstâncias até me parecem interessantes.

Estou muito curiosa para vir a descobrir um pouco mais sobre o Aaron, já agora. As autoras, num tom MG nada subtil, lembram-nos que não sabemos muito sobre ele, e lançam suspeitas sobre o seu passado. Tenho a certeza que, depois do que aconteceu no final, este tema é inteiramente adequado (eh) para explorar no próximo livro.

E já agora, adoro o Jasper. Tão, tão divertido. É o mote para algumas cenas divertidas do livro, e acho-lhe tanta piada, ele é tão egocêntrico e tão determinado a fazer um papelinho de frenemy para com o trio, mas curiosamente é-lhes leal. Não conta o que sabe sobre a identidade do Call, e acho que nem sequer ficou chocado. Há pessoas que realmente descobrem neste livro, e ui, é o fim do mundo. Mas o Jasper? Apenas mais um dia na escola.

Diria que as autoras plantaram umas coisinhas aqui e ali sobre personagens e aspectos do mundo a que tencionam voltar, e que possivelmente poderão afectar o futuro da série. Estou muito intrigada com algumas delas. E tenho a dizer que adorei algumas das revelações deste livro. (A Anastasia? Brilhante. O vilão? Previsível a algumas páginas de distância, mas chocante. Aquilo que os makars de serviço aprendem a fazer? Muito curioso. É um prelúdio para o que Call é capaz de fazer, e vai vir a fazer, provavelmente.)

O final, como disse... oh, dói, tenho o coração apertadinho por causa do que acontece. Tenho a certeza que é algo potencialmente reversível; calculei que acontecesse algo do género algures na série, porque é o acontecimento óbvio que vai colocar o Call no caminho do Constantine Madden e das loucuras que este se atreveu a fazer. Espero que consiga fazer o que o Constantine nunca fez, no sentido de ser mais bem sucedido a reverter esta situação. Imagino que seja difícil de o fazer, mas tem de ser feito. É um desenvolvimento demasiado bom para ser ignorado.

Depois disso, ainda temos um par de cenas chocantes, porque algumas pessoas descobrem o segredo do Call... e ninguém questiona, ninguém fala com ele, ninguém tenta perceber o que se passa. Simplesmente é colocado em isolamento, e depois chega uma certa personagem para lhe deitar uma bomba em cima, e fim. Acaba ali.

Não sou particularmente fã desta cena final, porque as autoras estão a fazer caixinha. É claro que há de haver alguém que vai falar com o Call - o mestre Rufus tem de ir, pelo menos, ele merece entender a verdade -, elas simplesmente estão a seleccionar o que lhes interessa mostrar e a torturar-nos com o resto. O salto para a revelação final não é bem orgânico e preferia que as coisas não acontecessem assim, porque deixa um cliffhanger, mas não um em aberto - um escancarado, mesmo. Do género "é isto? é isto o fim? não faltam folhas ao meu livro?".

Ainda assim, e por causa disto e do que enumerei aqui na opinião, estou tão excitada e animada pela perspectiva de ler o próximo livro. Ainda que tenha de esperar um ano. Agora é que isto está a aquecer e a tornar-se interessante.

Duas notas para a edição. Uma é que gostava mesmo que a Planeta parasse de trabalhar com esta tradutora. Não há um livro que leia dela que não aconteça encontrar uma mão-cheia de coisas que me soam mal, e um trabalho consistentemente sub-óptimo não merecia continuar a ser feito pela mesma pessoa.

A segunda é que a Planeta devia ganhar juízo e recompensar os leitores por esperarem pela edição em português. Quero dizer, uma pessoa já paga o livro a peso de ouro (para o tamanho e tipo de edição que é, é muito, muito caro), e depois venho a descobrir que as ilustrações que começam cada capítulo são só assim um bocadinho maiores (na edição portuguesa são do tamanho dum selo - um dos grandes, mas um selo) na edição original (ocupam algo como metade da página, talvez um pouco menos). A sério? Que falta de respeito pelo ilustrador. E que falta de respeito pelos leitores. Francamente.

Título original: The Bronze Key (2016)

Páginas: 256

Editora: Planeta

Tradução: Catarina F. Almeida

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Curtas BD: Sandman. volumes 9 a 11, e Noites Sem Fim

Sandman v.9: As Benevolentes I, Neil Gaiman, Mark Hempel, D'Israeli, Glyn Dillon, Charles Vess, Dean Ormston
Sandman v.10: As Benevolentes II, Neil Gaiman, Mark Hempel, Richard Case, Teddy Kristiansen
Sandman v.11: A Vigília, Neil Gaiman, Michael Zulli, Jon J. Muth, Charles Vess, Kevin Nowlan
Sandman: Noites Sem Fim, Neil Gaiman, Glenn Fabry, Milo Manara, Miguelanxo Prado, Frank Quitely, P. Craig Russell, Bill Sienkiewicz, Barron Storey
Ah, é triste. Não gosto nada de perspectiva de não ter mais nada desta série por ler. Passei tão bons bocados com ela, diverti-me tanto, maravilhei-me com a quantidade (e qualidade) de coisas que comporta e com todas as ligações que faz... que até vai parecer estranho não ter mais uns livros dela nos próximos meses para ler.

Estes três volumes comportam a evolução natural da série para o seu fim inevitável, aquele que já se anunciava há muitas páginas. Talvez mesmo desde o início, ainda que não o soubesse. É como se o escritor tivesse (quem é que estamos a tentar enganar? de certeza que tinha) este fim em mente, e foi construindo o seu castelo, peça a peça, para cativar o leitor e depois fazer-lhe cair o castelo em cima, e o impacto ser maior. Estou oficialmente em luto desta série. (Bastante adequado, diria.)

A piada da coisa é que o personagem que é a modos que protagonista da série (é o nome dele no título, apesar do foco ir mudando um pouco) é a coisa mais... ingostável de sempre, resmungão, discreto, pouco aberto... e ainda assim, o Morpheus tem uma evolução a nossos olhos, é possível ver como a atitude dele muda ou se adapta à medida que a série avança; e o pensar de forma diferente faz com que haja uma certa inquietude na forma como age e se apresenta: e é isso que o faz tomar uma decisão drástica (ou nem tanto assim) no final. Tudo o que vimos antes contribuiu para isto, ainda que nada tivesse a ver.

As Benevolentes só peca por uma coisa: é um bocadinho longo. 13 números da revista de BD é um algarismo sugestivo, claro, e eu até tive sorte porque como dividiram o volume em dois isso acaba por quebrar a leitura; contudo, pergunto-me se não poderia ter sido contada de forma mais sucinta. (Arrasta um pouco, de vez em quando.)

Só não me queixo mais por uma coisa: porque o Gaiman e os artistas aproveitam para nos proporcionar o melhor volume possível. Do lado da escrita, indo buscar todos os personagens e mais alguns que tenham alguma vez aparecido na série. A sério, tanta gente. Foi bom rever tantos deles. Muitos só têm uma aparição (o Batman, o Clark Kent e o J'onn J'onzz aparecem no A Vigília), outros têm histórias tangenciais (foi muito bom poder rever a Rose Walker e a Nuala, mas até tenho pena de não saber como é que a Barbie está).

Também gostei muito da intervenção de outros personagens como o Matthew (grandessíssimo totó, lia uma série só com as aventuras dele), ou até do Coríntio, que dantes me arrepiava até mais não. A Delírio tem uma história um pouquinho triste, porque não acompanha o enredo principal - o que até pode não ser coisa má para a sua sanidade.

A Larissa - que conhecemos por outro nome -  tem uma intervenção interessante, porque as suas acções são marcadas por um conflito de interesses. É a mulher que anteriormente tinha sido aludida algures no volume 7 como uma paixão que correu mal. E a revelação dá logo uma panóplia de camadas e significados, especialmente às suas interacções ao longo da história... fascinante, especialmente pelo feitio e postura de ambos.

Oh... mas há tanta gente que aparece e que eu de certeza que não vou lembrar de fazer menção. A postura da Morte por toda a coisa é muito interessante. O Hob Gadling, por exemplo, tem direito a uma história extra, depois da vigília, em que se reencontra com a Morte e reflecte no que aconteceu. A reacção de todos os Eternos durante a situação da Vigília também é curiosa de acompanhar... e gostava tanto de ver o que se passou a seguir a isso.

Destaque ainda para os artistas destes volumes: a arte principal de As Benevolentes é enganadoramente simples e colorida, mas muito cativante; e a de A Vigília é aquele estilo desenhado/pintado que eu gosto tanto de ver.

Em Noites Sem Fim, Neil Gaiman escreveu uma história para cada Eterno, com vista a ser ilustrada por um artista diferente. A primeira é para a Morte e é das minhas favoritas, sobre um dia que se repete eternamente, mas como mesmo assim, ninguém escapa à Morte. O segundo conto é para o Desejo, e tem uma perspectiva fascinante de uma mulher que usa o desejo na sua vida... mas é ilustrada pelo Manara, e começo a ficar enjoada dele. É tão omnipresente e o estilo é tão único mas tão imutável... eh.

O terceiro conto é sobre o Sonho, decorrendo muito antes da acção principal da série. É sobre uma espécie de conclave de divindades/seres míticos que guiam o universo, e é sobre uma amante do Morpheus que o abandona, e é sobre o feudo criado entre ele e Desejo. É muito bom. Alguns dos seres são estrelas que iluminam sistemas solares como o nosso, ou o de Krypton.

O quarto, bem, a arte não é bem a minha onda. Muito abstracta para mim. Mas alguns painéis deixaram uma impressão, especialmente depois de ler o texto que acompanha. Até conseguem deixar uma impressão, apesar de tudo. Apreciei-os mais intelectualmente na sua maioria, mas alguns conseguiram dar um bom retrato de Desespero.

E o quinto, bem, é sobre a Delírio. Tão alucinado como ela. Mas isso quer dizer que a arte também é bastante abstracta e me passou largamente ao largo. Dá para entender a história no fim, mas a compreensão foi-me algo dificultada pelo formato er, "estranho" de apresentar a narrativa.

O sexto é sobre o Destruição e é intrigante, mas parece um capítulo duma aventura menor e quase que soube a pouco. Merecia ser alargado e melhor explorado. E o sétimo é sobre o Destino. Sobre o seu papel no grande esquema das coisas. É muito giro pela sua simplicidade.