segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Emma, Jane Austen


Opinião: Não é a primeira vez que leio este livro, se bem que a primeira vez já foi há muito tempo. Estou mais familiarizada com os filmes ou a série da BBC. No entanto, a primeira coisa que me passou pela cabeça quando comecei a ler o livro foi que a Jane Austen devia ter pensado ao escrevê-lo: "Agora, leitor, desafio-te a gostares da Emma." E não é que ela me deu razão à distância de 200 anos? Parece que disse que ia criar uma heroína da qual ninguém a não ser ela gostasse.

E de facto a Emma é uma heroína única nos livros da autora. A primeira frase do livro descreve-a: "Emma Woodhouse, bonita, inteligente e rica." É a única heroína que nasceu num meio privilegiado. E se por um lado a jovem é bastante inteligente, as suas circunstâncias deixam a desejar - tendo a irmã e a perceptora casado, é a única que ficou em casa a cuidar do pai. Isto faz com que nunca tenha saído de Highbury e que os seus horizontes sejam forçosamente limitados.

Isto faz também com que se abandone no início da narrativa ao papel de casamenteira. Só que as suas boas intenções têm por trás algum exagerado sentido de auto-importância. O que faz com que afaste Harriet Smith, uma jovem de origens humides, dum partido perfeitamente aceitável para olhar para um que lhe estaria vedado. Emma convence-se que o rapaz está interessado na Harriet, mas acaba redondamente enganada.

A autora continua a narrativa desafiando o leitor a cair no mesmo erro da Emma - supor uma ligação entre a Emma e Frank Churchill, quando ele até dá bastantes pistas sobre em quem está interessado. Quem sabe o desfecho da história pode reler as suas acções a uma nova luz e perceber que as pistas estão todas lá.

A escrita baseia-se muito na descrição e diálogo para caracterizar os personagens e "pintar-nos" os cenários - o que permite uma leitura contemplativa e em que podemos descobrir a cada momento outra pérola de crítica social como as representadas na pessoa da Sra. Elton, completamente pomposa e tão cheia de si.

A evolução do enredo é bastante mais leve que outros livros da escritora, permitindo-me divertir e indignar em partes iguais com as personagens e as suas peripécias. Felizmente, depois de tantos erros e reviravoltas, a Emma aprende alguma coisa e sai um pouquinho mais sábia (e mais feliz).

O que me leva ao Sr. Knightley. Qualquer troca de palavras entre ele e a Emma é muito engraçada, pois conhecendo-se eles há muito tempo, há uma certa familiaridade, e ao mesmo tempo ele tem umas saídas algo sarcásticas. E muito tempo passa ele a criticar ou a discordar da Emma... Quem diria que em grande parte das vezes até tem razão! Em certos aspectos acaba também por não ser o herói típico dos livros da escritora.

Este livro é uma delícia de ler e de ver. A edição é toda catita e em capa dura, e eu que não sou fã da cor rosa fiquei toda babada quando vi a capa. Só tenho uma queixa, que não sei se se deve à tradução ou à revisão - o uso da palavra Surry em vez de Surrey. Surrey é um condado de Inglaterra, ou seja, é um nome toponímico, e acho que não se mexe nesse tipo de termos. Da primeira vez que vi "Surry" ainda pensei que era erro, pois logo a seguir vinha "Surrey", mas há tantas ocorrências de "Surry" no livro que afinal o "Surrey" é que parece o erro.

Título original: Emma (1815)
 
Páginas: 364
 
Editora: Edi9
 
Tradutora: Isabel M. Costa

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