segunda-feira, 31 de março de 2014

Este mês em leituras: Março 2014

Fim do mês de Março! Que mês estranho, primeiro parecia que já nos tínhamos livrado da chuva, mas eis que volta em força no fim do mês, para nos lembrar que a Primavera não se escapa sem chuva, e que "Abril águas mil". Foi um mês mais calminho em termos de posts, apesar de ter mais tempo... falta de inspiração, suponho. Há posts para escrever, mas às vezes a motivação não é muita, e prefiro não insistir, que coisas tiradas a martelo não resultam bem. Leve o tempo que levar, hei de escrever sobre um livro, e é melhor que o escreva com o nível de entusiasmo certo.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • Half Bad - Entre o Bem e o Mal, Sally Green - um livro muito diferente daquilo que esperava, mas também muito interessante, o Nathan não vai deixar ninguém indiferente com a sua história;
  • Entre o Agora e o Nunca, J.A. Redmerski - há que reconhecer, é um livro viciante e delicioso de ler;
  • The Assassin's Blade, Sarah J. Maas - adoro a Celaena, a protagonista desta série, e destaque à autora por escrever 5 novelas que são, sozinhas e cada uma, uma narrativa muito boa e satisfatória, mas também no conjunto compõem uma história completa e fabulosa sobre o passado da personagem principal.

Outras coisas no blogue


Aquisições

Seeking Her, Cora Carmack
The Scarlet Plague, Jack London
Fangirl, Rainbow Rowell
White Hot Kiss, Jennifer L. Armentrout
Alienated, Melissa Landers
The Assassin's Blade, Sarah J. Maas
The Wind in the Willows, Kenneth Grahame, David Roberts
O The Scarlet Plague e o The Wind in the Willows foram adquiridos na promoção das 24h do Book Depository, um par muito jeitoso (especialmente o segundo), e admirem-se, levaram entre 1 e 2 semanas para chegar. Tendo em conta que ultimamente tenho que (des)esperar entre 3 e 4 semanas para receber um livro, é um milagre dos Correios.

Os outros livros, como sempre, são autoras que gosto de seguir - a Sarah J. Maas, a Cora Carmack e a Jennifer L. Armentrout -, ou livros que me suscitaram curiosidade - o Fangirl, que adequadamente ao nome traz um monte de fangirling atrás, e o Alienated, do qual se calhar também podia dizer o mesmo. Bem, tive boas recomendações, vamos lá ver ler.


Luís Vaz de Camões, por Ary dos Santos e Eunice Muñoz, audiolivro
Bocage, por Ary dos Santos, audiolivro
Fernando Pessoa, por João Villaret e Mário Viegas, audiolivro
Onde deixei os meus óculos? - O Como, Quando e Porquê da Perda de Memória, Martha Weinman Lear
Aproveitei que estes audiolivros estavam numa promoção, conjugando com um vale, para trazer para casa. O livro da perda de memória faz parte duma promoção que tinham no site da Fnac nos dias em que fiz a encomenda, de "oferta de livro surpresa". Talvez o leia, talvez o ofereça.

A Cortesã, Susan Carroll
Half Bad - Entre o Bem e o Mal, Sally Green
A Estranha Vida de Nobody Owens, Neil Gaiman
O Livro Maléfico, Magnus Myst
As Obras-Primas de T.S. Spivet, Reif Larsen
Kalevala - O Poema Épico da Finlândia
Os Sonetos de Shakespeare, William Shakespeare, Vasco Graça Moura, Jorge Martins (ilustrações)
O primeiro, da colecção que estou a fazer pelo Círculo de Leitores, o segundo, a custo zero graças a descontos em cartão. Os três seguintes da promoção da Presença, que levaram um bocadinho a chegar, mas chegaram - o do Reif Larsen suscitava-me curiosidade desde que saiu! (Já lá vão 4 anos e tal...) E os últimos dois também estavam com um desconto jeitoso.


A pilha da BD do mês. Os livrinhos da Disney que continuam presentes nas bancas (e fico eu muito satisfeita com isso, antes de a Goody começar a publicá-los queixava-me imenso do desaparecimento da Disney nas papelarias). Comprei o Cat vs. Human porque sigo o blogue da autora e adoro os seus comics fofinhos sobre gatos e ter gatos, e porque o consegui apanhar em dias de promoção. A seguir, as revistas da Marvel em português. E por fim, um livro do Garfield e um do Calvin & Hobbes - a Gradiva está a reeditar os livros deste par, o que me deixa muito contente.

A ler brevemente

Ponho só dois livros, que é para não dar um passo maior que a perna. O Fangirl porque estou curiosíssima, parece quase um livro que podia ser a minha alma gémea - expectativas altas, espero não me desiludir. O Alienated porque, bem, também estou curiosa. Não me tinha chamado a atenção inicialmente, mas quero ler.

Os outros são leituras que espero que me cheguem durante o mês de Abril. O The Winner's Curse tem um burburinho tal (já ouço falar dele há uns 9 meses) que até é um pouco assustador - mais uma vez a coisa das expectativas, há que gerir para não cair do cavalo de forma espectacularmente estrondosa. O da Melissa de la Cruz porque gostei dos seus Blue Bloods, e gostava de ver o que tem preparado nesta nova série.

domingo, 30 de março de 2014

Marcados à Nascença, Caragh M. O'Brien


Opinião: Gaia é uma jovem de 16 anos que está a treinar para ser parteira, como a mãe, e Marcados à Nascença começa com o primeiro parto que faz sozinha. Só que devido à imposição do Enclave, a cidade fortificada que domina a sua terra natal, Gaia terá que entregar o bebé, para que o Enclave lhe possa proporcionar uma vida melhor. Só que quando algo ameaça a sua família, Gaia começa a questionar aquilo que sempre conheceu, lançando-se numa demanda para ajudar os pais.

Este é um livro com uma base muito interessante. O aspecto reprodutivo, e as questões que levanta acerca disso, cativou-me. As entregas dos bebés, as dificuldades reprodutivas dentro do Enclave, os problemas genéticos por trás de tudo... é um bom fundo para uma história distópica, e um que não tenho visto muitas vezes.

Passei um bom bocado a ler a história. É de leitura fácil e viciante, assim que nos embala. E impossível não torcer pela Gaia, para que perceba os problemas por trás deste sistema, para que consiga ajudar os pais e escapar às garras do sistema. Gaia é uma heroína inicialmente deslumbrada com o Enclave, mas aos poucos vai descobrindo do que o Enclave é capaz, e é recompensador fazer essa viagem com ela.

Contudo... isto, nas mãos de um escritor mais dotado, podia ser tão melhor. Há uma falta de profundidade, de complexidade, até de intensidade, no desenvolvimento do enredo, dos personagens e até do mundo. Achei as relações entre personagens com a falta de aquele quê que me faz acreditar nelas. Nunca acreditei que o Enclave, este sistema totalitário perigoso, fosse realmente assim... nunca há realmente uma sensação de perigo. A Gaia foge e é apanhada uma série de vezes por eles, e geralmente escapa de maneiras tão parvas e tão parvamente simples que me pergunto como é que o Enclave ainda está de pé, sendo gerido por idiotas. Por vezes as coisas não são bem explicadas ou apresentadas com a clareza necessária, enfraquecendo a história.

Isto impede-me de ter gostado do livro, ou de vir a ler as sequelas? Não, porque fora isto gostei da história, até estou investida no decorrer dos acontecimentos e quero saber o que vem a seguir, o que a autora tem preparado para o resto da trilogia. Terminei o livro com uma boa sensação, e a experiência de leitura foi agradável. Mas lá que me entristece ver uma história que podia ser grandiosa, ser executada de forma insatisfatória, entristece.

Título original: Birthmarked (2010)

Páginas: 416

Editora: Everest

Tradução: Maria João Rodrigues

sábado, 29 de março de 2014

Uma imagem vale mil palavras: Vampire Academy (2014)

Tenho uma nova política: mantenho-me longe de trailers e grande parte do material promocional que rodeia adaptações de livros - pelo menos, de livros que tenha lido. Cada vez mais tenho a sensação que só levam a expectativas e preconceitos errados, e acabam por colorir a minha experiência de forma negativa. Prefiro viver na abençoada ignorância. Parece que funciona melhor.

Esta nova política tem consequência para a minha experiência com este filme. Se fosse a crer nos milhentos trailers e clips e sei lá mais o quê, este filme reduzia-se a drama adolescente com meninas más na escola secundária de vampiros. Felizmente, não corresponde à verdade. Quero dizer, o filme (e a história original) têm esse elemento, claro, e em parte num tom satírico, mas é (são) muito mais do que isso.

Tendo em conta aquilo que me recordo, o filme acaba por estar relativamente perto da narrativa original. Há uma certa preocupação em explicar os conceitos base deste mundo, o que é louvável... excepto quando põem na boca dum dos personagens algo que o seu interlocutor já sabe, só para benefício do espectador. (Sim, de vez em quando dá-lhe para o info-dump. Tsk, tsk.)

Até gostei do visual geral do filme. Encaixa bem com o que sei deste mundo e com o que tinha visualizado eu própria. Adorei a biblioteca/sótão da igreja (só podia), mas toda a escola em geral conseguiu agradar-me. O aspecto de terem aulas à noite era algo de que não me lembrava, mas é mesmo giro.

Se há coisa que posso criticar na estrutura narrativa... é terem sido demasiado ambiciosos. Quiseram ser fiéis à história original de tal modo que está tudo lá, sim, mas para encaixar tudo em menos de duas horas... a história não respira. Acontece tudo demasiado rápido, sem tempo para o espectador ponderar na informação que adquiriu. Sem tempo para desenvolver as personagens e as relações entre eles.

A mim, como conheço a história, isto não fez tanta diferença (fez alguma, pois afinal notei este aspecto), já que não tive dificuldade em acompanhar. Mas e alguém que não leu os livros? Será que consegue acompanhar e usufruir da experiência cinematográfica?

Quanto a actores... tinha algumas dúvidas quanto à Zoey Deutch, mas acabei por me divertir imenso com a sua Rose. Quase que me esquecia que a Rose tinha um lado meio "macaco", algo incapaz de levar as coisas a sério. Sei lá, captou bem a irreverência da Rose. Quanto ao Dimitri, acho que não tinha grandes expectativas, não tenho uma imagem clara do que imaginava quando lia os livros... gostei do actor. Estava... grande, para o que me lembro de o ver quando o papel foi anunciado.

Sobre o resto do elenco, não tenho grande coisa a apontar. Houve alguns cujos papéis e cenas me pareceram excessivamente cheesy e cliché - a Kurova, a Mia, talvez a rainha Tatiana ou o Victor -, mas penso que isso não tem tanto a ver com as capacidades dos actores. Creio que tem mais a ver com a qualidade do argumento e com aquela qualidade de "narrativa apressada" de que falei ali em cima, que não deixou desenvolver alguns personagens em condições.

Sobre o final, adorei aquela cena. Muito Rose e Dimitri, e hilariante. Podia ter visto o filme todo só por aquela cena.

quinta-feira, 27 de março de 2014

White Hot Kiss, Jennifer L. Armentrout


Opinião: Mais um bom livro, muito ao estilo da autora, no género paranormal. Em White Hot Kiss, a protagonista é Layla, uma jovem entre dois mundos, metade demónio, metade Warden. Escusado será dizer que ambas as raças são inimigas, o que a coloca numa posição única. Não pertencendo exactamente a nenhum deles, Layla foi educada pelos Warden, tentando sempre negar a sua outra metade, pois a sua herança demoníaca é uma abominação para a maioria destes.

É um mundo interessante, aquele apresentado neste livro. Os Warden são essencialmente gárgulas, um pouco ao estilo dos desenhos animados da nossa infância. Seres com aparência humana mas com capacidade de se transformar em gárgulas, trabalham para o lado do Bem os anjos, aqui apresentados como Alphas, a caçar demónios e enviá-los de volta ao Inferno. Apenas peca por não explorar melhor estes aspectos.

Diria que é um típico "primeiro livro da série" da autora. Não é muito forte, é algo formulaico, tem muita coisa por explorar e apresentar, e só nos livros seguintes vamos ver a força deste mundo e desta história - mas as fundações estão lá, e a escrita da autora corre muito bem, o suficiente para virar páginas vorazmente.

A Layla é uma protagonista pouco destacada, de início, muito ratinho e cheia de medo de se impor e de conseguir o que quer, mas creio que evolui ao longo da história, e acredito que é uma heroína mais capaz no fim da narrativa. Acho que a sua história perde um pouco o pulso ali a meio, mas ganha vigor de novo mais no fim. A revelação sobre a sua parentalidade e o seu papel nos acontecimentos torna as coisas interessantes.

Tenho que comentar o "triângulo"... ou "não-triângulo"... da história. Não fiquei convencida. Passei demasiado tempo desconfiada do Roth, e irritada com a Layla por estar a confiar num tipo que conhecia há meia-dúzia de dias em detrimento de com quem convivia há anos. Mesmo com as coisas interessantes que ele lhe apresentou, achei tudo demasiado precipitado. Como personagem, o Roth até acaba por se tornar interessante, especialmente por fugir ao típico nos demónios... mas gostava de o conhecer não definido pela Layla. Quanto ao Zayne, ainda está indefinido. Suspeito que está em negação no que toca à Layla, e demasiado preso ao que sabe e conhece para sair do padrão. Mas vai ser divertido vê-lo perder a cabeça, se tal vier a acontecer.

Quanto à história, perde-se um bocadinho no drama adolescente da Layla, mas o worldbuilding e a escrita da autora impede que perca o interesse. Como disse, as revelações sobre o passado da Layla e sobre a sua natureza deram um novo ritmo à história. E e introdução da Lesser Key of Solomon foi algo tardia, mas resultou num enriquecimento da narrativa, e espero que da série.

O fim deixa algumas questões em suspenso (e que suspenso), o que me deixa animada para ler o próximo livro, a sair em Outubro. Tenho boas expectativas. A partir daqui só pode melhorar.

Páginas: 400

Editora: Harlequin Teen

quarta-feira, 26 de março de 2014

Picture Puzzle #83


O Picture Puzzle é um jogo de imagens, que funciona como um meme e é postado todas as semanas à quarta-feira. Aproveito para vos convidar a juntar à diversão, tanto a tentar adivinhar como a fazer um post com puzzles da vossa autoria. Deixem as vossas hipóteses nos comentários, e se quiserem experimentar mais alguns puzzles, consultem a rubrica nos seguintes blogues: Chaise Longue.

Como funciona?
  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens que representem as palavras do título (geralmente uma imagem por palavra, ignorando partículas como ‘o/a’, ‘os/as’, ‘de’, ‘por’, ‘em’, etc.);
  • Fazer um post e convidar o pessoal a tentar adivinhar de que livro se trata;
  • Podem ser fornecidas pistas se estiver a ser muito difícil de acertar no título, mas usá-las ou não fica inteiramente ao critério do autor do puzzle;
  • Notem que as imagens não têm de representar as palavras do título no sentido literal.

Puzzle #1
Pista: título fantástico em inglês.

Puzzle #2
Pista: título clássico em inglês; as duas primeiras imagens compõem uma única palavra.

Divirtam-se!

segunda-feira, 24 de março de 2014

Entre o Agora e o Nunca, J.A. Redmerski


Opinião: Este livro leva o crédito de me apresentar uma road trip que me satisfez verdadeiramente. Demasiadas vezes tropecei em histórias com road trips que resvalavam para o lado cómico, resultando numa história que não me captou muito o interesse. Aqui, a autora faz com esse conceito algo que suponho que esperava ver/ler há muito: a road trip como espaço de reflexão e crescimento, como mote para a evolução dos personagens.

É esse o ponto forte da narrativa. A autora escreve de modo a tornar a história viciante e impossível de continuar a virar as páginas, e a Camryn e o Andrew fazem um par de protagonistas muito cativantes. Adorei segui-los à medida que se esforçavam para encontrar um rumo, dois jovens perdidos e a tentar resolver os problemas que carregavam.

A Camryn no início irritou-me um pouco. Parecia ter aquela atitude superior "eu sou boa demais para isto" em relação ao que a rodeava, mas suponho que era uma maneira de não ter que se envolver. Quando se mete à estrada acaba por se tornar mais interessante. A sua evolução, o seu acordar para a vida - sexual e não só -, e os desafios a que se propõe trouxeram outra dimensão à personagem. Foi fascinante vê-la com o Andrew e o modo como se desafiavam.

Quanto ao Andrew, achei-lhe maioritariamente piada, porque bastantes coisas que lhe saíam da boca eram bem divertidas. (No entanto, tenho dúvidas em relação a algumas outras.) Achei curioso, o significado da tatuagem dele. É um pormenor engraçado que agradou a esta fã de mitologia. Dá para ver que o Andrew tem muita coisa que carrega para trabalhar, incluindo alguma raiva e revolta pela sua situação... mas admiro o facto de ter conseguido manter uma boa disposição ao longo da história, sempre pronto a puxar pela Camryn.

Isto leva-me à única crítica que tenho a fazer à história, que é o fazer caixinha durante demasiado tempo com a "grande revelação". É muito claro desde o início que há algo que faz o Andrew reter-se. A manutenção do mistério durante demasiado tempo só fez com que a minha imaginação começasse a inventar as piores hipóteses possíveis. Esteve na prisão? Morreu-lhe uma namorada? Foi abusado quando era criança? Está a morrer? Tem uma mulher louca escondida no sótão?

E não, não vou dizer se alguma destas hipóteses estava certa, e se sim, qual.

O problema com este arrastamento é que a revelação é feita demasiado tarde. Se tivesse sido apresentada mais cedo, era um óptimo conflito para a narrativa. Desta maneira, é apenas uma fraca tentativa de manipulação emocional do leitor. E pior, não é muito bem resolvida, na minha opinião. Uma espécie de deus ex machina e um salto temporal que evita lidar com as consequências dessa revelação? Pfff, acho que podíamos fazer melhor.

Quanto ao final, é curto, mas giro. Fofinho, até certo ponto. A leitura da sinopse do segundo livro deixa-me a pensar que a autora vai, er, desfazer o que fez. *medo* É o problema das sequelas. Para continuar a escrever com os mesmos personagens, temos de lhes arranjar mais sarilhos. Bem, suponho que faz sentido. A Camryn e o Andrew terminaram a história num bom lugar, mas ainda têm coisas para trabalhar.

Foi uma boa leitura. Daquelas fantásticas e que nos consomem por um par de dias até devorar por completo o livro. Mas sobre as quais não é possível elaborar muito sob pena de estragar o encanto.

Título original: The Edge of Never (2012)

Páginas: 464

Editora: Presença

Tradução: Fátima Andrade

sexta-feira, 21 de março de 2014

Half Bad - Entre o Bem e o Mal, Sally Green


Opinião: Esta foi uma leitura surpreendente. Ou inesperada. Ou algo do género. É uma boa sensação. A sinopse tinha-me suscitado curiosidade, por isso tencionava ler o livro de qualquer modo... mas nada na sinopse ou sequer em opiniões que tivesse lido antes do livro me poderiam preparar para o tipo de leitura que tinha à minha espera. É bom quando os autores nos surpreendem desta maneira. Podem pegar numa série de elementos que já vimos noutros lados, e construir uma coisa nova e interessante com eles, cativando assim o leitor.

Half Bad é a história de Nathan, um rapaz que vive numa Inglaterra actual, mas onde uma sociedade de bruxos vive integrada e incógnita. Nesta sociedade, composta exclusivamente por Bruxos Brancos e liderada pelo Conselho de Bruxos Brancos, os Bruxos Negros são perseguidos por serem vistos como perigosos e violentos. O Nathan é um caso raro, filho de uma Bruxa Branca e de um Bruxo Negro, Marcus, o mais perigoso e mais perseguido de todos os Bruxos Negros. E é essa... situação que vai conduzir a narrativa, à medida que o Nathan se aproxima do seu 17º aniversário, altura em que tem de fazer a cerimónia dos dons ou não poderá tornar-se num bruxo.

Devo já avisar que é preciso estômago para ler a narrativa do Nathan. Devido a ser filho de quem é, o rapaz é excluído, mal-tratado, espancado, preso e obrigado a tornar-se num assassino, usado como arma numa guerra fria entre o Conselho de Bruxos Brancos e o pai - no qual o miúdo nem sequer pôs os olhos uma única vez na vida! Devo acrescentar que passei grande parte do livro furiosa com esta sociedade, por usarem e massacrarem um miúdo pelo grandioso crime de, bem, ser filho de quem é.

E é claro que tenho de elogiar a autora por isso. Apresentando-nos uma situação aparentemente a preto-e-branco - com os Bruxos Brancos, vistos como bons, e com os Bruxos Negros, vistos como maus -, acaba por mostrar que há muitas nuances de cinzento no comportamento humano, e que as etiquetas criadas para encaixar os outros são tão limitativas. A dicotomia bem/mal, vista como intrínseca destes grupos, acaba por ser desafiada pelos comportamentos que apresentam.

Acho interessante a opção que a autora tomou em termos narrativos. Em parte da história, a narração é feita na segunda pessoa do singular, o que de certo modo, permite a imersão do leitor na história no Nathan, naquilo que ele está a passar, que não por acaso, é dos momentos mais pesados de todo o livro. Acho que este modo de narração também serve um pouco para mostrar como o Nathan se estaria a tentar afastar mentalmente daquela situação para manter a sua sanidade. É um bom artifício de escrita, e até fiquei com vontade de o ver melhor explorado.

Em termos de personagens, gostei bastante do Nathan como narrador. Tem uma voz bastante pragmática, quase clínica, analisando as coisas como elas são. Tem um sentido de certo e errado muito apurado, sempre ciente das injustiças praticadas contra ele, mas sempre ciente que por ser filho de quem é, as coisas não vão mudar. Acho piada a certos aspectos da sua personalidade, e fascina-me ver como ele reage às coisas. A partir da segunda parte da história, dá por si muito cheio de fúria, sem capacidade para a exteriorizar de forma adequada. E há um aspecto da história que pode servir de metáfora para a própria adolescência - a sensação de alienação, de isolamento que o protagonista enfrenta, combinada com as mudanças que observa acontecer no seu corpo devido à herança de Bruxo Negro.

Gostei de conhecer a família do Nathan. Compunham tanto um bom sistema de suporte (a avó, e o irmão e a irmã), como um antagonista (a irmã Jessica, uma personagem mesmo irritante e arrepiante). A Mercury também me interessou como personagem, pela posição que ocupa entre os Bruxos Negros, e à sua volta juntam-se alguns mistérios e alguns personagens que me intrigaram (incluindo o Gabriel - que pela maneira como o seu nome era pronunciado, me fez pensar que não era bem aquilo que aparenta). O Marcus, apesar de não estar presente fisicamente, é uma presença constante na história, e contudo sabemos tão pouco dele - muito mais é aquilo que é especulado e inventado sobre este personagem.

Em suma, esta foi uma história que me agradou e surpreendeu. Não é para todos os gostos, mas acho que vale a pena dar-lhe uma oportunidade, porque é uma história bem gira e que dá que pensar. Nunca teria pensado no rumo que a autora tomou, mas foi uma boa surpresa, e estou mesmo curiosa acerca do que tem preparado para nós a seguir. Mal passo esperar.

Título original: Half Bad (2014)

Páginas: 320

Editora: Presença

Tradução: Catarina Gândara

quarta-feira, 19 de março de 2014

Picture Puzzle #82


O Picture Puzzle é um jogo de imagens, que funciona como um meme e é postado todas as semanas à quarta-feira. Aproveito para vos convidar a juntar à diversão, tanto a tentar adivinhar como a fazer um post com puzzles da vossa autoria. Deixem as vossas hipóteses nos comentários, e se quiserem experimentar mais alguns puzzles, consultem a rubrica nos seguintes blogues: Chaise Longue.

Como funciona?
  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens que representem as palavras do título (geralmente uma imagem por palavra, ignorando partículas como ‘o/a’, ‘os/as’, ‘de’, ‘por’, ‘em’, etc.);
  • Fazer um post e convidar o pessoal a tentar adivinhar de que livro se trata;
  • Podem ser fornecidas pistas se estiver a ser muito difícil de acertar no título, mas usá-las ou não fica inteiramente ao critério do autor do puzzle;
  • Notem que as imagens não têm de representar as palavras do título no sentido literal.


Puzzle #1
Pista: romance histórico adulto em português.

Puzzle #2
Pista: fantasia épica YA em inglês.

Divirtam-se!

segunda-feira, 17 de março de 2014

TAG: Breaking The Spine


Esta TAG foi-me passada pela Cláudia do blog Uma Biblioteca em Construção. (Obrigada!) Consiste em responder a algumas perguntas sobre um dos maiores pesadelos de um bibliófilo... lombadas com vincos.

Perguntas:
1. Vincas/dobras as lombadas ou preferes manter o livro como novo?
Normalmente consigo manter as lombadas sem dobras ou vincos. Não é que me importe quando acontece, apenas a maneira como leio um livro permite-me evitar as dobras, e manter as lombadas sãs e salvas.

2. Para quem não gosta de lombadas dobradas, já o fizeram acidentalmente?
Não é que desgoste, mas como disse, consigo deixar as lombadas intactas, normalmente. No entanto, já têm acontecido alguns acidentes, sim... fico mais zangada quando estou a ler um livro, reparo que a lombada está bonitinha, e depois dou por mim a fazer um vinco passadas 20 páginas.

3. Se comprares um livro usado em que a lombada venha dobrada, como te sentes?
Não me importo. Até tem algum charme, quer dizer que pelo menos o livro foi lido.

4. Concordas ou discordas que um livro com a lombada estragada é um livro amado?
Não necessariamente. É um livro lido, pelo menos, mas a pessoa que o leu pode não ter gostado. Nem toda a gente é tão cuidadosa como eu, por isso na maioria dos casos uma lombada "estragada" apenas quer dizer um livro lido. (Ou uma péssima qualidade de encadernação.) No meu caso, acaba por ser mais como a pergunta sugere. Os livros com lombadas mais vincadas são aqueles que mais foram lidos por mim, o que em princípio denota um favorito.

5. Como as lombadas nos hardbacks são mais difíceis de estragar ou nota-se menos, preferes comprar hardbacks ou paperbacks?
Lombadas e a sua capacidade para ganharem dobras não é, e nunca foi, o que me faz escolher entre paperbacks ou hardcovers... mas, sim, prefiro muito mais hardcovers. Chamem-me superficial, mas são tão bonitos.
Bem, desafio-vos a responder à TAG, se quiserem. :)

domingo, 16 de março de 2014

Curtas: Seeking Her, Catch, The Scarlet Plague

Seeking Her, Cora Carmack
Uma curta história ou novela contada do ponto de vista do protagonista masculino de Finding It, Jackson Hunt. A narrativa começa algum tempo antes de Finding It, e mostra-nos o Hunt no início do trabalho de babysitter/guarda-costas/stalker da Kelsey, e quais foram as impressões dele sobre ela.

Gostei da história precisamente por causa do ponto de vista do Hunt. Dá para conhecer um bocadinho melhor o seu passado, e compreendê-lo. Acho interessante que ele tenha ficado fascinado com a Kelsey, e com a "chama" que ela emite, e que tenha compreendo tão bem que ela estava a trilhar o mesmo caminho que ele no passado. E que a quisesse ajudar e impedir de seguir por esse caminho.

Por outro lado, a história é tão curta... queria mais, bem mais. Permite-nos acompanhar alguns acontecimentos do Finding It do ponto de vista do Jackson, algo como 1/4 ou 1/3 da história... mas não inclui muitas das melhores partes. Gostava de saber o que motivou o Jackson a levar a Kelsey a viajar Europa fora, o que pensou em certos momentos, especialmente quando estão em Itália. Quando as coisas estavam a ficar interessantes, a novela acaba, infelizmente.

Catch, Michelle D. Argyle
É curioso. Sigo o blog da autora há sei lá quanto tempo, originalmente porque estava interessada numa história que ela tinha escrito, Cinders, uma espécie de sequela da Cinderela. Nunca cheguei a ler nenhum dos seus livros, vergonhosamente. No entanto, gosto muito de seguir o seu blog, e gosto de ler o que ela escreve... por isso achei que esta era uma oportunidade boa para parar de ser pateta e ler alguma coisa ficcional escrita pela autora.

Catch conta a história de Miranda, uma jovem que vai de férias com a família a Las Vegas, e que é assaltada por um ladrão bastante peculiar. Os dois envolvem-se num jogo bastante engraçado que poderá permitir à Miranda recuperar as suas coisas, e o resultado é algo surpreendente e bem giro.

A história em si agradou-me bastante. Acho que não estava à espera da maneira como as coisas se desenrolaram, mas foram uma boa surpresa. Deu para compreender os dilemas dos protagonistas, conhecê-los um bocadinho, e torcer por eles.

Contudo, gostava que a história fosse maior, pois a premissa é tão boa que adorava vê-la mais desenvolvida. O facto de ser tão curtinha também não me deu uma boa ideia de como é a escrita da autora. Acho que vou querer ler mais coisas dela.

The Scarlet Plague, Jack London
Esta é uma pequena história muito interessante. Publicada em 1912, postula que um evento apocalíptico, uma "peste escarlate", devasta quase por inteiro a população mundial em 2013. O tempo presente da história ocorre 60 anos após esta peste, em que um idoso que viveu os tempos da peste conta as suas vivências aos netos.

Não sou muito fã do enquadramento da narrativa. É um bocado inútil, o uso do avô a contar aos netos aquilo que aconteceu quando a peste começou. O autor refere que as pessoas neste mundo 60-anos-após-a-peste usam um modo de falar meio selvagem, e que os netos mal o compreendem com o seu uso de inglês culto, por isso não devem perceber uma grande parte da história que conta. Por isso, como artifício para apresentar a narrativa é frágil.

Por outro lado, adoro a ideia da peste como evento apocalíptico. As vivências do avô são muito vívidas e extremamente interessantes. É nesta parte que a prosa se destaca, e foi a parte que mais me cativou. Gosto imenso da maneira como o autor descreve o desmoronamento da sociedade e até lhe encontro algum mérito na descrição da peste (apesar de ter algumas dúvidas acerca do quão científica será... mas não lhe posso levar a mal, o autor escreveu isto há 100 anos, o conhecimento científico não era bem o mesmo). E o facto de imaginar o mundo todo ligado, em permanente comunicação, numa previsão da globalização que temos hoje, é algo de louvar.

Questiono, no entanto, a imaginação do autor nalgumas partes. Particularmente, no que toca à sociedade e costumes que vislumbra em 2013. Aquilo que menciona dá a sensação de uma sociedade altamente estruturada, uma sociedade de classes, muito como aquela de há 100 anos atrás. Acho que tendo mostrado a sua capacidade de previsão noutras áreas, foi muito modesto na estrutura social apresentada, ainda que fosse uma para ser destruída pela peste.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Picture Puzzle #81


O Picture Puzzle é um jogo de imagens, que funciona como um meme e é postado todas as semanas à quarta-feira. Aproveito para vos convidar a juntar à diversão, tanto a tentar adivinhar como a fazer um post com puzzles da vossa autoria. Deixem as vossas hipóteses nos comentários, e se quiserem experimentar mais alguns puzzles, consultem a rubrica nos seguintes blogues: Chaise Longue.

Como funciona?
  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens que representem as palavras do título (geralmente uma imagem por palavra, ignorando partículas como ‘o/a’, ‘os/as’, ‘de’, ‘por’, ‘em’, etc.);
  • Fazer um post e convidar o pessoal a tentar adivinhar de que livro se trata;
  • Podem ser fornecidas pistas se estiver a ser muito difícil de acertar no título, mas usá-las ou não fica inteiramente ao critério do autor do puzzle;
  • Notem que as imagens não têm de representar as palavras do título no sentido literal.

Puzzle #1
Pista: título clássico de mistério em português.

Puzzle #2
Pista: romance histórico adulto em português.

Divirtam-se!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Cress, Marissa Meyer


Opinião: Li este livro há quase um mês e tem sido tão, mas tão difícil conjurar as palavras para escrever uma opinião. A este ponto da série, não consigo ser imparcial, e pior, a perspectiva de ter de dizer o que achei do livro faz de mim uma tontinha balbuciante. Porque como, exactamente, é que vou começar a enumerar as coisas que gostei, se para mim toda a leitura foi uma viagem fabulosa?

Acho que Cress marca um bocadinho pela evolução da autora e pelo amadurecimento do seu trabalho. Pois se isto fosse uma trilogia (não é), Cress seria claramente o segundo livro, aquele em que imensas coisas acontecem, os personagens são movidos como peças de xadrez para chegarem ao ponto em que são necessários para o xeque mate grande final, mas a história principal ainda está longe do clímax.

No entanto, a autora consegue manobrar o enredo e os personagens de modo mais habilidoso que em Scarlet, lidando muito melhor com a quantidade crescente de POVs e de acção em várias frentes, e criando de certo modo uma história mais coesa. Não que o livro anterior não tenha sido bom, mas suponho que se pode dizer que sofreu com a inexperiência da autora, coisa que já não se verifica aqui.

Cress segue as linhas gerais da história da Rapunzel, colocando a personagem titular fechada num satélite, sozinha. Felizmente para ela, cruza-se com o grupo de personagens que já conhecemos dos livros anteriores, e que encetam uma operação de salvamento para a ajudar. As coisas não correm muito bem, e todo o grupo é separado, resultando o resto da narrativa na tentativa de se juntarem novamente.

Gostei tanto da Cress. Tendo vivido grande parte da vida fechada e sozinha, é, naturalmente, bastante ingénua, mas tem um lado sonhador e aventureiro que me agradou. Achei piada ao facto de ela sonhar com a vida para além do satélite, tornando-se numa pirata ou aventureira ou princesa. E também à reacção dela quando finalmente se vê na Terra, que nunca conheceu. Até um deserto tem tanto para lhe dar. Gosto que nunca perca essa qualidade de surpresa e espanto que tem, porque é o que faz dela uma personagem tão interessante.

Antes de conhecer o Capitão Thorne, a Cress já tem a modos que uma paixoneta por ele, o que é eternecedor, mas também uma opção curiosa da autora. Permite desconstruir a personagem do Thorne e permite-o evoluir aos olhos dela e aos nossos. Uma personagem pessoa não tem que ser perfeita para gostarmos dela, e neste caso as aventuras que têm juntos esclarece-os acerca da personalidade um do outro, mas também os aproxima por causa disso. E a parte final da história deles... tão gira. Algo incompleta (coisa que imagino que a autora corrija no próximo livro), mas gira.

Sobre a Scarlet e o Wolf, bem, não posso comentar muito sem spoilar, mas a parte deles da história aperta-me o coração. Do ponto de vista da escritora, é uma bela opção, especialmente para lidar com a quantidade crescente de POVs. Mas do ponto de vista de leitora, espero que a situação se resolva o mais depressa possível, que o meu coração não aguenta ver o Wolf tão em baixo.

Sobre a Cinder e o Kai, eu provavelmente devia citar a Iko - "Isto é melhor do que uma telenovela!" - e pirar-me, que de resto vai ser complicado comentar. Mas não resisto. O percurso que ambos fazem é muito interessante, culminando num evento arriscado, mas estranhamente com alguma piada. E temos direito a uma cena bem gira mais lá para o fim com os dois, em que fica claro uma coisa importante que têm em comum - a responsabilidade e o que fazer com ela. A Cinder, particularmente, debateu-se com este ponto durante o livro, e acho que o fim a pôs um passo mais perto de aceitar que tem de fazer as coisas que precisam de ser feitas.

Tenho de mencionar alguns personagens secundários, que bem o merecem. Primeiro a Iko, que continua divertida como tudo, com aquela grande paixoneta pelo Kai, e que passa merecidamente a um novo... estado. É claro que a Marissa Meyer tinha de ser má e pôr esse novo estado num ponto tremido, mas acredito que tudo se resolva pelo melhor. Depois o Dr. Erland, que volta a ter um papel importante no curso dos acontecimentos. Entristece-me pensar no que ele passou desde os seus tempos em Luna, e em como se debateu com o seu papel no desenrolar de muitos dos acontecimentos no passado e presente da tetralogia.

Depois a autora aproveitou para nos apresentar dois novos personagens, e aqueles que serão os protagonistas do último livro, Winter. Um é a personagem titular desse livro, Winter, que se perfila idealmente para o papel de Branca de Neve, o conto que o último livro pretende recontar. O outro personagem é o par dela, sobre o qual não posso comentar muito, apenas que achei piada ao seu sentido de humor e em como se integrou na "equipa Cinder".

Sou fã da maneira como a autora costuma recriar os momentos-chave dos contos na sua história, e aqui não foi excepção. Por um lado, temos todos os pontos altos da história da Rapunzel - a torre, o deserto, a cegueira (a autora fez uma coisa bem boa com este ponto), e até as "lágrimas curativas". Apenas este último momento ficou um pouco irresolvido, ou melhor, não o vemos ter a sua conclusão natural. Suponho que a autora o esteja a guardar para o último livro.

Por outro, a apresentação dos protagonistas do próximo livro foi tão bem feita, e duma maneira que encaixa tão bem com o conto da Branca de Neve que só me faltou dar pulinhos de alegria. O momento em que reconheci o (presumido) protagonista masculino de Winter foi assim um daqueles momentos "Eureka!", só comparável a quando reconheci o momento "Avó, que boca tão grande tens" do Scarlet. Já a Winter está numa posição em tudo reminiscente da Branca de Neve no início do conto (talvez com um pequeno twist retorcido), por isso até tenho medo de tentar adivinhar o que é que a autora tem preparado para o último livro. (Mas quero tanto ver a cena da maçã envenenada. Tenho a certeza que a autora lhe vai dar uma bela reviravolta.)

Acho que não posso dar a opinião por terminada sem mencionar aquela que acaba por ser o motor principal da história, aquela que adoro odiar, a vilã rainha Levana. Uma megera tão megera que até as megeras têm medo dela. A extensão da sua maldade e calculismo não têm mesmo limites. E eu odeio-a. Mas sem ela não havia história, por isso... e bem, ela tem sido muito esperta nas suas tramóias, por isso estou com vontade de a ver tropeçar.

Por outro lado, estou com muita curiosidade em ver como a hostilidade entre terrestres e lunares vai ser resolvida. Ou melhor, eu sei que vai ser difícil. Tenho boas razões para querer ver isto resolvido *cof*Cinder e Kai*cof*, mas também tenho em mente que uma mudança súbita de mentalidade dos dois povos em relação à sua inimizade é completamente irrealista... sei lá, espero que a autora possa encontrar um meio termo.

E pronto, termino a opinião em completa negação, porque simplesmente recuso-me a acreditar que faltam 11 meses para eu poder ler o fim desta história. Vou *tentar* não morrer de impaciência até lá. (Não prometo nada.)

Páginas: 560

Editora: Feiwel and Friends (MacMillan)

domingo, 9 de março de 2014

Curtas: Calvin & Hobbes, Garfield, Cascão

À parte o ver por aí a tira ocasional (porque convenhamos, Calvin & Hobbes deve ser a obra da nona arte mais citada por esse mundo fora), acho que não leio Calvin & Hobbes há uns 10 anos ou mais. Entre eu e a minha irmã, adquirimos alguns álbuns quando éramos miúdas, e lemos praticamente tudo da tira graças à biblioteca local... mas já foi há algum tempo.

Não o sabia, mas estava com saudades de um monte de coisas. Da cara esquisita que o Calvin faz quando se mete a fazer caretas. Da Susie, a miúda que mora na casa ao lado, com a qual o Calvin tem a típica relação de um miúdo de 6 anos - "as miúdas são nojentas!" Da Rosalyn, a única babysitter que consegue aguentar uma noite a tomar conta do Calvin.

Da imaginação inesgotável do Calvin, que o põe a caminhar entre dinossauros ou monstros intergalácticos, a crescer (literalmente) sem limite ou a perder a gravidade. Da relação com o Hobbes, tão ternurenta e turbulenta. E dos pedacinhos de sabedoria que ocasionalmente ocorrem ao Calvin. Por vezes o rapaz lembra-me um adolescente preso no corpo de um miúdo de 6 anos.

Gosto destes volumes/reedições, que juntam cada um dois volumes da série que reúne as tiras de Calvin & Hobbes. Originalmente editados pela Gradiva em 1998, a editora fez agora uma reedição de ambos, e a acreditar no que é anunciado no site da editora, farão uma reedição de todos os álbuns. Uma óptima notícia.

Gosto bastante deste formato, pois os álbuns são maiores que o formato normal para BD de tiras. Imagino que nem todos os volumes da série normal tenham sido reeditados neste formato maior, mas já fico contente se reeditarem aqueles que o foram.

O Essencial junta as tiras de Calvin & Hobbes e de Há Monstros Debaixo da Cama?; O Indispensável reúne A Noite da Grande Vingança e Progresso Científico... uma Treta!.

Cascão 50 anos, Mauricio de Sousa
Este é um volume bem giro em capa dura que comemora os 50 anos do personagem Cascão, da Turma da Mônica, reunindo algumas histórias do personagem. Histórias bem engraçadas, porque a premissa do personagem é que não toma banho. Nunca.

Diverti-me com as várias histórias, e apesar de ser uma espécie de antologia (e de eu ter lido alguns álbuns do personagem e da Turma quando era mais nova), quase todas acabaram por ser novidade para mim. Só achei que podíamos ter alguma contextualização em cada história - por exemplo, em que ano foram publicadas e em que revista. Sei lá, uma introdução mais longa e mais completa sobre o personagem também seria interessante.

Entre todas as histórias, a minha favorita foi uma sobre a primeira vez... a tomar banho... do Cascão. Muito divertida, pelo formato de "documentário" que tem. E acho interessante que tenho sido criado para a linha manga da Turma da Mônica, em que os personagens estão mais crescidos, o que justifica esta quebra na premissa do personagem. Além disso, essa quebra mostra uma evolução no personagem, e isso é sempre bom.

Volume que reúne as tiras do Garfield entre Janeiro de 1988 e Outubro de 1989. (Datas engraçadas, pois pude ler neste álbum a tira do dia em que nasci. Sou eu que estou velha ou só ando a ler ultimamente tiras que já andam por cá há algum tempo?)

Não tenho um historial de ler muito Garfield no passado, mas gostei de ler este volume e pude apreciá-lo à mesma. A edição é muito boa, em capa dura, e o papel é de melhor qualidade que o normalmente usado em livros de tiras de BD.

Diverti-me imenso a descobrir as questões principais da tira. A paixão do Garfield por comida, as vezes em que faz/é obrigado a fazer dieta. As patifarias que faz ao Odie, coitado do cão. As trapalhadas do Jon. O Nermal e o modo como irrita o Garfield. O que o pobre carteiro sofre às mãos (garras) do Garfield. As "caçadas" aos passarinhos e os esquemas para confundir o Jon. Mesmo não sendo uma das tiras da minha infância, gostei imenso deste volume.

sexta-feira, 7 de março de 2014

World After, Susan Ee


Opinião: Segundo livro da série Penryn & the End of Days, World After começa nos momentos quase imediatamente a seguir ao fim de Angelfall. A Penryn e a família estão novamente reunidas, e juntaram-se novamente à Resistência, coisa que não vai durar muito, porque se há coisa em que a Susan é mestre, é não nos deixar sequer respirar antes de enfiar um monte de obstáculos no caminho da Pen (pobre da rapariga).

Desta vez, depois de tudo o que fez para ajudar e recuperar a irmã, a Penryn tem dificuldade em reconectar-se com ela. Pois a Paige voltou mudada, e a Penryn não sabe se consegue reconhecer a irmãzinha nesta pessoa tão diferente que tem à frente. Aquilo que a Paige é agora está a um passo de se transformar num monstro, e só o amor pela família e pela irmã a impede de passar o limite.

Achei muito interessante ver a Penryn debater-se com este dilema, o de querer voltar a abraçar a irmã mas deter-se por causa daquilo que está à vista, ignorando outros sinais. Apesar de tudo, a Pen faz tudo pela irmã, e neste volume volta a dar por si à sua procura. Pontos bónus por a Susan usar um artifício semelhante ao do livro anterior para fazer avançar a história, e ao mesmo tempo conseguir escrever uma coisa fresca e que não soa a repetição.

Parte disso tem a ver com a maneira como a autora escreve a história. Nada na história parece desperdício, nada serve para engonhar. A história e o enredo estão escritos de maneira habilidosa, e de modo a que cada evento, cada acção, sirvam para avançar a narrativa, ou definir melhor o worldbuilding, ou aprofundar a caracterização dos personagens. A Susan dá resposta a perguntas e coisas que ficaram por esclarecer do primeiro livro, enquanto lança ainda mais perguntas e sugere coisas que atiçam ainda mais a curiosidade. Isto traduz-se num livro que pega no leitor e o leva a virar páginas sem dar conta, num ritmo viciante, até chegar ao fim.

Continuo fã da Penryn, que tem uma personalidade fabulosa. Ela sabe fazer, e faz, tudo o que é preciso fazer para sobreviver, e não pede desculpas por isso. Mas ao mesmo tempo debate-se com os problemas da irmã, e tem um fraquinho pelos mais fracos (mete-se pelo menos um par de vezes em sarilhos para ajudar alguém), e às vezes só quer ser uma miúda normal, nem que seja por cinco minutos, para poder suspirar por um tipo giro (é claro que a realidade não a deixa).

Tenho um bocadinho de medo por ela, porque estamos sempre a vê-la compartimentalizar as coisas, e colocar aquelas com que não pode lidar no seu "cofre mental", mas - e ela própria reconhece-o - qualquer dia o cofre não vai fechar, e as coisas más vão sair todas cá para fora duma vez, e nesse dia a sanidade dela ainda vai para o Inferno. Tenho muito medo desse dia.

Quanto ao Raffe, está ausente por uma parte da narrativa, mas temos direito à segunda melhor coisa a seguir a ele, que é a sua espada. É impressionante o modo como a autora conseguiu dar personalidade à espada, e ainda conseguir usá-la como um artifício narrativo, mostrando-nos alguns momentos no ponto de vista do Raffe - coisa importante para ajudar a compreender como é que ele "funciona".

Gosto imenso de o ver a ele e à Penryn juntos, porque fazem genuinamente uma boa equipa (adoro aquela cena no oceano), e têm um sentido de humor fantástico (adoro as piadinhas que fazem à custa um do outro), e algumas cenas com eles são de aquecer o coração (ah, a cena depois da cena do oceano, e ainda a cena depois dessa)... mas não consigo largar a sensação de que vou acabar esta série de coração partido. Dê lá por onde der, a separação intrínseca entre os dois é muito difícil, senão impossível, de quebrar. E se há coisa que a Susan consegue fazer, neste mundo pós-apocalíptico recheado de anjos, é ser realista. Por isso não vejo que volta pode ela dar a isto.

Passemos para outras coisas que me deprimam menos. Adoro o elenco de personagens secundários. A mãe da Penryn é fabulosa na sua loucura com uma lógica tão particular, e eu tenho a certeza que ainda vai ter um papel muito importante na narrativa. A Paige surpreendeu-me, porque eu achava que a reviravolta no seu destino significava que a ia perder brevemente, mas agrada-me mesmo aquilo que a autora está a fazer com ela. Estou deveras curiosa para ver o que vai sair daqui.

Os gémeos Dee e Dum também me deixam curiosa, porque tenho sempre a sensação que há algo mais com estes dois, que estão sempre a tramar alguma que faça parte de um endgame só deles, e que ainda vamos descobrir qualquer coisa sobre eles que nos vai deixar boquiabertos. O Uriel continua aquele tipinho manipulador e cheio de esquemas, e aquilo que vislumbramos das tramóias dele não é bonito. Nem por sombras. Estou com uma vontade louca de descobrir que ele tem um certo arcanjo supostamente morto escondido algures só para o beneficiar, e que esse arcanjo consiga voltar só para criar mais caos neste mundo já de si caótico. Se há coisa em que os anjos são muito bons, é no caos.

Em termos de revelações, aquilo que mais gostei de descobrir prende-se com as maquinações e política dos anjos, e com os "escorpiões" e com aquilo em que a Paige se tornou. Há aqui muita coisa em jogo, e a autora faz um bom trabalho, e deliciosamente tortuoso, em revelar a quantidade certa de informação antes de nos atirar mais perguntas para cima. Há tanta coisa que quero saber... lá terei de esperar pelo terceiro livro (e seguintes), cuja data de publicação neste momento ainda é incerta. Leitora interessada sofre muito.

Páginas: 320

Editora: Skyscape