terça-feira, 31 de março de 2015

Este mês em leituras: Março 2015

Este foi um mês... interessante. O meu tempo foi, digamos, redistribuído, exigindo uma adaptação a novos horários; o que por sua vez se traduziu em menos tempo de leitura - mas consegui apesar de tudo encontrar algumas boas histórias. E consegui no meio disto encontrar algo importante: o permitir-me desligar às vezes, quando é preciso, e não me obrigar a ler só porque é habitual que o faça naquela situação. (Tradução: às vezes dá mesmo vontade de ir a dormir no autocarro, e não a ler.)

Livros lidos

Again, o símbolo da Marvel Unilimited representa os dois livros de
BD que li através do serviço - que terminou em Fevereiro, mas
consegui guardar um par de livros no tablet para ler este mês.

Opiniões no blogue

  • Curtas: Captain America vol. 2: Castaway in Dimension Z, Rick Remender, John Romita Jr.; Thor: God of Thunder vol. 2: Godbomb, Jason Aaron, Esad Ribić, Butch Guice; Avengers Arena vol. 1: Kill or Die, Dennis Hopeless, Kev Walker, Alessandro Vitti; The Fearless Defenders vol. 1: Doom Maidens, Cullen Bunn, Will Sliney;
  • Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Patrick Ness;
  • Entre o Agora e o Sempre, J.A. Redmerski;
  • The DUFF, Kody Keplinger;
  • A rainha manda...: It Happened One Autumn, Lisa Kleypas;
  • A Cada Dia, David Levithan;
  • Curtas: X-Men vol. 1: Primer, Brian Wood, Olivier Coipel, David López; Journey into Mystery featuring Sif vol. 1: Stronger than Monsters, Kathryn Immonen, Valerio Schiti; Thor: The Dark World Prelude, Christos Gage, Christopher Yost, Craig Kyle, Jason Aaron, Lan Medina, Scot Eaton, Ron Lim, Ron Garney;
  • Contagem Decrescente, Bruno Franco;
  • Vermelho como o Sangue, Salla Simukka.

Os livros que marcaram o mês

  • Entre o Agora e o Sempre, J.A. Redmerski - ainda me custa um bocado que a autora tenha tentado fazer mais do mesmo, e que não tenha inovado verdadeiramente, mas a verdade é que ainda assim é um livro bom duma autora extraordinária;
  • The DUFF, Kody Keplinger - quanto mais penso nele, mas gosto deste livro; a Kody podia ser muito nova e inexperiente quando o escreveu, mas tem uma voz fantástica e escreve de forma tremendamente real; adorei a voz da Bianca, e o seu percurso ao longo da história;
  • A Cada Dia, David Levithan - um livro óptimo para nos fazer pensar, com uma história intensa e fascinante, e uma escrita bem bonita;
  • O Diário da Princesa, Meg Cabot - em representação da série, porque quanto mais avanço, mais gosto dela, e mais aprecio os pormenores que a Meg Cabot introduziu nela e desenvolveu ao longo dos livros.

Outras coisas no blogue


Aquisições

Livros em inglês do mês (mais um em português, o Contagem Decrescente, recebido por parte do autor e da respectiva editora). Aproveitei uma promoção com descontos da Fnac para adquirir os dois livros da Charlaine Harris, que são dois complementos à colecção da Sookie Stackhouse. The Winner's Crime é, guess what, um livro muito desejado, e não há de esperar muito tempo pela sua vez.

Sweet Sixteen Princess e Valentine Princess são duas novelas que complementam a série do Diário da Princesa, e que encomendei para completar a minha colecção. O primeiro já nem consegui encontrar à venda senão em segunda mão, mas o exemplar que me chegou estava em óptimas condições. Apenas era um antigo livro de biblioteca, o que explica os autocolantes por todo o lado. Ainda hei de os retirar, bem como a capa transparente protectora.

De resto, temos The DUFF, que adorei ler, e The Return, para a minha colecção da Jennifer L. Armentrout, e que imagino poder vir a ler brevemente.

Banda desenhada do mês, e neste caso a pilha até é maior que a dos livros de ficção. O primeiro livrinho é um de marcadores, Do Infinito Mar do Meu Desejo, da Dom Quixote, do qual podemos destacar vários marcadores de cartão com um poema. De seguida, as revistas Disney da Goody do mês.

Tropecei em Jerusalem, e estava muito curiosa, tenho lido coisas boas sobre o autor, e estava a um preço razoável. Juntam-se à colecção os livros finais da colecção dos 75 anos do Batman. E por fim, comecei uma nova colecção chamada Novela Gráfica, do Público e da Levoir.

Com a qual tenho um par de problemas. Um é porque o termo Novela Gráfica é totalmente desadequado. Novela não é o mesmo que novel (de graphic novel) em inglês. Novela Gráfica é um termo usado em contexto muito específico, numa cultura particular (norte-americana), e a maior parte dos livros desta colecção não encaixa nisso. E também há o problema de graphic novel ser por vezes usado com algum snobismo, para se evitar dizer que se lê BD, e por isso é um termo que me desagrada.

O segundo problema tem a ver com a questão de que quando a colecção foi anunciada, diziam que os livros eram em tamanho original. O que eu não percebi, é que isso implicaria ter a estante a brincar às montanhas e vales, já que nenhum dos livros tem o mesmo tamanho. Estou com uma comichão dos diabos só de olhar para aquilo e ver tudo desalinhado. Enfim, tenho gostado das colecções anteriores desta parceria, e acredito que esta me possa vir a agradar. Só tenho pena que não haja coesão ao longo da mesma.

A ler brevemente

Desta vez ponho só na pilha o The Winner's Crime e o The Return, que em ambos os casos imagino vir a ler brevemente. De resto, repito livros da pilha do mês passado, porque quero muito ler estes meninos, todos me deixam tremendamente curiosa. Não menciono livros que possa vir a adquirir, porque não vou encomendar muita coisa, e porque devem sair mais no fim do mês, ou seja, possivelmente não me chegarão antes de Maio.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Vermelho como o Sangue, Salla Simukka


Opinião: Este é o momento em que eu percebo que estou demasiado habituada a calhamaços. A sério, tinha as minhas dúvidas que um livro com meras 200 páginas me enchesse as medidas, mas a verdade é que este volume foi bastante satisfatório, com uma história com início, meio e fim, com uma protagonista bem delineada, e um enredo relativamente envolvente.

Vermelho como o Sangue segue Lumikki Andersson, uma jovem solitária que se vê quase contra a sua vontade envolvida na investigação de um crime. Alguns colegas da escola vêem-se metidos em algo bem mais perigoso do que imaginavam, e a Lumikki, mesmo prezando a sua independência e os seus hábitos solitários, não consegue dizer que não quando lhe pedem ajuda.

É um pouco estranho ver o marketing deste livro anunciar a próxima Lisbeth Salander (dos livros do Stieg Larsson), ou a Lisbeth versão YA. Principalmente porque apesar de tudo as personagens não têm nada a ver. Quero dizer, consigo ver a influência duma personagem tão marcante como a Lisbeth na criação da Lumikki, porque a ideia será, parece-me, criar uma personagem igualmente única e marcante, mas depois o retrato de ambas é tão diferente que é desconcertante.

É surpreendente a quantidade de coisas que a autora consegue fazer com tão pouco espaço. Consegue traçar um retrato psicológico da Lumikki, apresentar algumas questões do seu passado que a puseram no local onde está hoje, mostrar uma miúda madura para a sua idade. O retrato não é extremo, é razoável para alguém daquela idade com as experiências que teve. Talvez a autora se esforce um pouco demais para torná-la singular, demasiado "sou demasiado fixe para esta cena", mas é a única coisa que não me agradou tanto na sua caracterização. 

O próprio enredo decorre com um bom ritmo. Tem a aparência de calmo e pausado, o que acho que tem a ver com o tipo de escrita (até de cultura, talvez), mas comporta imensa coisa. Acaba por ter uma certa dinâmica, porque está sempre algo a acontecer, mesmo nos momentos parados, mesmo nos flashbacks. A escrita é, como mencionei, algo calma e domada (nunca houve assim um pico na acção, nem partes particularmente excitantes), mas exprime umas ideias interessantes, bem giras, e até bonitas.

Por falar nisso, a tradução pareceu-me geralmente boa (foi uma óptima ideia traduzir do finlandês directamente), mas tinha ocasionalmente algum fraseamento um pouco estranho. Alguns casos posso atribuir à possibilidade de as estruturas frásicas em finlandês serem diferentes, mas também houve casos em que havia uma tentativa de usar expressões equivalentes mais portuguesas, e que caíam ao lado da expressão correcta.

O final fecha bem a história, mas ao mesmo tempo deixou-me tremendamente curiosa. Uma das situações em torno da Lumikki é revelada, mas pelo menos outras duas ficam em suspenso, e quero mesmo descobrir o que se passou.

Foi definitivamente um livro atípico, provavelmente por vir de uma cultura diferente, e no entanto conseguiu cativar-me e manter o meu interesse. Em poucas páginas conseguiu contar uma história, o que já é raro, e só por isso já merece louvores.

Título original: Punainen kuin veri (2013)

Páginas: 216

Editora: Presença

Tradução: Anna Toivola Câmara Leme

quarta-feira, 25 de março de 2015

Contagem Decrescente, Bruno Franco


Opinião: Para efeitos de full disclosure, li este livro a convite do autor e recebi-o por parte dele e da editora. O que não influenciou em nada a minha opinião, porque a) não é do meu feitio que eu deixe isso acontecer e porque b) eu não conseguiria escrever algo sobre um livro que não fosse aquilo que eu senti durante a leitura. Portanto, aqui vai a minha opinião honesta sobre a mesma.

Contagem Descrescente é um policial que segue o protagonista Rodrigo Tavares na investigação de uma série de crimes que estão marginalmente relacionados com uma sua investigação anterior. (Relatada no livro anterior do autor, O Novo Membro.) O bom da coisa é que a informação relevante do livro anterior é relatada neste, e portanto o leitor consegue perfeitamente seguir o enredo sem se perder. Os acontecimentos e motivações dos personagens que vêm dessa história anterior são bastante claros e permitem uma continuidade, ao mesmo tempo que alguém poderia começar com este livro sem confusões.

Entre as coisas que eu mais gostei no livro, destacaria a maneira como se lê. Pode parecer ter muitas páginas, mas o tipo de letra, o tamanho do livro e as margens são generosos, e a escrita e a história fluem muito bem, e num instante se chega ao fim. Não custa nada a ler, e passei um bom tempo a ler.

A maneira como a trama se desenrola também capta o interesse, especialmente no que toca aos vilões envolvidos no enredo, às suas motivações e ao modo como executam os crimes. Além disso, gostei de ver como o autor fez alguma pesquisa e a introduziu na narrativa. Como o Rei D. Sebastião e a sua vida (e Camões e Pessoa, também, indirectamente) são importantes para a evolução da história e como são apresentados de forma a que o leitor fique a conhecer um pouco sobre ele(s).

O principal ponto negativo, e que neste caso afecta o gozo que se pode tirar da leitura, porque é algo que permeia toda a história, é algo que tem vários factores e que pode ser condensado e resumido naquilo que me parece ser uma certa falta de experiência e falta de maturidade por parte da escrita.

Isto traduz-se, por exemplo, numa certa sensação que tive por todo o livro, de irrealidade e de incredibilidade. Passei muito tempo a pensar "isto não me soa a como uma pessoa normal falaria/reagiria", porque havia sempre essa aura de aquilo não me parecer real. E por isso creio que é algo que pode ser conseguido com a maturidade da escrita. Um escritor com experiência vai conseguir transmitir essa aura de realidade e credibilidade.

A parte da credibilidade implica também que a informação e situações descritas sejam verdadeiras, e de acordo com a vida real. O que não me pareceu propriamente acontecer com a descrição da vida de detective da PJ do Rodrigo. Quero dizer, eu espero mesmo que os detectives da PJ não façam o que ele faz, ou não se resolviam crimes neste país.

É que temos a questão do Rodrigo trabalhar sempre sozinho, sem nunca ir à sede, nem dar parte a superiores do que está a acontecer na investigação. Temos a questão de ele começar a trabalhar nesta investigação sozinho, sem ela lhe ser atribuida, sem dar parte de que está a trabalhar nela. Tudo o que vemos da organização geral desta polícia é o chamar do técnico do local do crime, e é feito duma maneira tão pouco oficial que me pergunto se as provas seriam admissíveis. Temos também o Fábio, o parceiro do Rodrigo, que é demasiado infantil para alguém daquela idade, quanto mais alguém daquela idade que conseguiu entrar na PJ.

Temos ainda a questão do que aconteceu com o assassino da Sandra (e falo do que sabemos inicialmente), porque nunca na vida aquilo poderia ter acontecido assim, há jurisdições a cumprir, e mesmo que pudesse, a quantidade de gente que era preciso subornar para executar as coisas daquela maneira é impensável. E temos também o problema de o Rodrigo trabalhar praticamente sempre sozinho ou com o seu grupinho, mesmo em situações em que seria realista chamar reforços, como os casos do terceiro e do quarto crimes.

Também falta às vezes uma certa lógica interna na história. O Rodrigo é supostamente superinteligente, mas raramente se vê provas disso. Que ele tenha acreditado que as coisas se passaram como lhe foi dito com o assassino da Sandra, é risível, porque com a experiência dele com o sistema isso não seria possível. E que ele tenha achado boa ideia ir sem reforços para os locais do terceiro e quarto crimes (especialmente o quarto, tendo a experiência que teve com o terceiro), bem, isso é ridículo. Até eu estava a ver que ia dar asneira.

Portanto, em suma, há bastante a melhorar, mas foi maioritariamente uma leitura satisfatória. Acho que a escrita e o enredo estão construídos duma maneira que pelo menos fazem fluir bem a leitura, porque a maior parte dos pontos negativos não me incomodou durante a mesma, ou pelo menos foi uma coisa menor.

Suponho que isso em si é um ponto positivo, porque noutro livro, as coisas menos boas deste ter-me-iam bulido com os nervos. Assim, são coisas que eu ao reflectir sobre a leitura consigo destacar como não tendo gostado, mas consigo pensar nelas sem irritação, apenas com a noção do que faz e não faz uma boa história, e sabendo que se fossem melhores, esta seria uma história melhor.

Páginas: 532

Editora: Chiado Editora

segunda-feira, 23 de março de 2015

Curtas: X-Men, Journey into Mystery, Thor

X-Men vol. 1: Primer, Brian Wood, Olivier Coipel, David López
Este livro é tão curtinho! Mal dá para apreciar a história e os personagens antes de acabar. Normalmente os arcos de história deste tipo de BD ocupam mais números, 5 ou 6, e este só tem 4, sendo que os primeiros 3 contam uma história contínua e o quarto é mais uma espécie de epílogo. A razão para tal é muito simples, os números seguintes da revista entraram no evento Battle of the Atom, mas mesmo assim é uma pena que não tenha havido mais espaço para contar esta história.

Acho que o meu primeiro contacto com os X-Men deve ter sido aquela série de animação dos anos 90, em cuja equipa estava a Jubilee; e por isso, apesar de ela geralmente não aparecer muito na BD que eu tenha lido, acaba por ser um elemento muito presente da equipa para mim. E por isso é muito bom vê-la na equipa aqui retratada neste livro.

A ideia de uma equipa feminina é bem gira, especialmente porque gosto muito das personagens que a compõem. Nesta primeira história, voltam a encontrar um antigo inimigo, que desta vez não é o antagonista, mas o desenrolar deste enredo não é muito forte ou intrigante, porque não tem tempo para se desenvolver ou ser mais ambicioso.

A melhor parte da história é a formação da equipa, o juntar dos elementos num grupo que trabalha bem em conjunto. Há tensões e discussões e choque de personalidades, enquanto tentam levar a cabo a missão, algo que é bastante realista.

É muito interessante por exemplo ver uma situação em que a Storm mostra como é implacável na protecção da equipa, ao ponto de poder sacrificar alguém que pensam já não poder salvar (o que gera tensão com outros elementos), mas depois na cena a seguir arriscar-se para salvar outro elemento da equipa. É uma dinâmica com potencial para se contarem boas histórias.

Esta revista, ao que sei mais generalista, conta um arco de história centrado na Sif. A história começa com mais um ataque em Asgard, que deixa Sif frustrada pela destruição e pelas vítimas que deixa. Decidida a tornar-se uma melhor e maior protectora, vai a extremos na procura dessa demanda.

Parte do interesse aqui passa por conhecer melhor a personagem da Sif, o que é satisfatório, mas também ver o percurso dela por esta tentativa de ganhar armas para cumprir melhor a sua missão. O que a leva a perder-se um pouco, mas também é uma boa curva de aprendizagem e fascinante de acompanhar.

Contudo, o melhor deste livro é a arte. Tem um estilo clássico e intemporal, que combina bastante bem o desenhador (Valerio Schiti) com a artista responsável pelas cores. E é esta (Jordie Bellaire) que merece todos os louvores, porque grande parte das páginas dão muita vontade de olhar e suspirar de tão bonitas, pelo trabalho de cor. É uma pena que no geral os coloristas não sejam muito reconhecidos nos créditos das capas das revistas e livros onde trabalharam. É trabalhos como este que merecem todo oreconhecimento.

Thor: The Dark World Prelude, Christos Gage, Christopher Yost, Craig Kyle, Jason Aaron, Lan Medina, Scot Eaton, Ron Lim, Ron Garney
Este volume reune algumas histórias em preparação para o segundo filme do Thor. Tem um número da revista de BD mais recente do Thor, em que o personagem Malekith é reintroduzido na história - a razão da presença da mesma, já que o personagem também aparece no filme. Tem também um par de números que reconta a história do primeiro filme.

Ambos são relativamente interessantes; o primeiro porque conseguiu cativar-me, e num instante fiquei investida na história e com vontade de continuar. O segundo porque permite rever a história do primeiro filme, o que é importante para o que se segue.

No entanto, a minha parte favorita do volume são os dois números que funcionam verdadeiramente como prelúdio para o segundo filme, porque preenchem os detalhes e complementam o decorrer dos acontecimentos entre os dois filmes do Thor. Isso quer dizer que explicam o que é que alguns dos personagens andaram a tramar durante este espaço de tempo, incluindo durante o filme dos Vingadores.

E pronto, foi bastante satisfatório perceber onde andava o Thor enquanto não estava no grande ecrã, e perceber o que o Loki andava a tramar, ver quem sabia o quê, e até onde é que estava a Jane e o que fazia, incluindo a pequena menção que ela tem no filme dos Vingadores. De certo modo, as pontes todas foram bem atadas, e gostei muito disso.

Quanto à arte, é relativamente satisfatória, nada de extraordinário, mas o número de Thor: God of Thunder, aquele com o Malekith, é bem giro. Segue o estilo gráfico dos números anteriores, o que é recompensador. Gosto disso.

sábado, 21 de março de 2015

A Cada Dia, David Levithan


Opinião: Não me parece que este livro vá deixar alguém indiferente. A sua premissa única garante-o, nem que seja porque nos obriga a pensar sobre género e atracção de maneiras que geralmente não consideramos. Independentemente da nossa opinião pessoal, David Levithan faz-nos questionar as etiquetas e classificações que usamos sem pensar duas vezes, e só por isso já merece uma estrela dourada.

A Cada Dia é a história de A, um@ ser incorpóre@ que acorda todos os dias num corpo diferente. As pessoas que ocupa nunca se repetem, e os corpos que ocupa têm sempre a sua idade (com 5 anos de existência ocupa pessoas de 5 anos, com 16 anos ocupa pessoas de 16). A tenta ao máximo manter igual e intacta a vida d@ ocupad@, viver os dias como el@ viveria.

Só que depois conhece Rhiannon. Rhiannon é a namorada de Justin, umas das pessoas que A ocupa durante o livro. E a relação de ambos capta-lhe o interesse, pela deconexão que parece haver. A deixa-se envolver, preocupando-se com ela, vendo uma centelha, uma promessa de algo mais, partilhando momentos com ela. Só que é impossível. A acordará noutro corpo no dia seguinte.

Acho que uma das coisas mais interessantes que o autor faz aqui é a representação do amor numa situação tão singular. A nunca teve um corpo seu, e por isso não se identifica com um género em específico, tal como a atracção que sente por outros não é definida por isso.

E então torna-se fascinante ver como se relaciona com a Rhiannon, porque para ela não é indiferente. Ela gosta de A pela pessoa que é, mas o corpo que usa condiciona naturalmente as suas interacções. A atracção física é importante; e a verdade é que é pelas aparências que nos relacionamos primariamente com os outros, pelas dimensões físicas, e isso dirige como nos vemos ou aos outros.

Outro ponto meritório de abordar é o modo como A e Rhiannon se relacionam. Por um lado, porque vejo os sentimentos de A no campo da paixão obsessiva, não necessariamente amor. Quero dizer, assim que se foca na Rhiannon, começa a meter os pés pelas mãos, a fazer um monte de asneiras, a deixar de respeitar os corpos e vidas que ocupa, a mudar-lhes radicalmente as circunstâncias. O respeito que tinha pelas pessoas que ocupa vai pelo cano abaixo assim que fica obececad@ com Rhiannon.

Por outro, este é um encontro de afinidades, de interesse mútuo, mas que tem dificuldades em sobreviver às circunstâncias. A não consegue compreender porque é que aquilo que pode oferecer não chega, e Rhiannon debate-se com ultrapassar a aparência física. Amb@s são muito jovens, despreparad@s para fazer cedências.

Algo mais que gostaria de fazer notar: o comportamento e moral e ético de A. É alguém que não existe em socidade, não se relaciona com o outro. E como é a nossa existência em sociedade que nos dá códigos morais e éticos a seguir, é quase surpreendente que A tenha algo semelhante a isso, uma tentativa de respeitar os que ocupa.

Contudo, é por essa mesma razão que não é de admirar que os abandone tão depressa pela Rhiannon. É claro que me frustrou imenso que começasse a ignorar os que ocupava, porque é uma violação de mentes e vontades, e por isso achei bastante adequado que as coisas começassem a correr mal para A quando ia demasiado longe.

A questão do como é que a situação de A funciona foi o que me cativou mais, mas também foi a que foi mais deixada por explorar. Há uma certa falta de foco da narrativa, ora se preocupa com a mecânica da coisa, ora com a relação A-Rhiannon, e acaba por lhe faltar um bocadinho assim para ambas serem completamente satisfatórias. Mas aproveito para louvar a escrita do David Levithan, que muitas vezes me fazia olhar para o ar a suspirar "ah, que coisa tão gira/bonita/fixe que eu acabei de ler".

O fim é um pouco desconcertante. É adequado, porque apresenta uma solução possível a uma situação impossível, mas também apresenta uma irresolução, um final demasiado aberto, quase escancarado, uma acção que não vemos concretizada, e sinto-me frustrada com essa noção. Especialmente porque é uma coisa que gostava de ter visto mais explorada na narrativa.

Por fim, termino com um comentário. É muito difícil desformatar a nossa cabeça daquilo que é visto como a norma na sociedade. É demasiado fácil conceber A como um rapaz heterossexual, só porque do outro lado da relação está uma rapariga heterossexual. É algo que passei o livro a tentar evitar activamente. É por isso que tentei evitar usar pronomes, artigos, e outros identificadores de género nesta opinião, usando o @ para a ambiguidade. A Cada Dia é um livro desafiante por essa razão, e desse modo é algo que recomendaria a qualquer pessoa. Vale a pena explorar aquilo que nos apresenta.

Título original: Every Day (2012)

Páginas: 288

Editora: Topseller (Grupo 20|20)

Tradução: Susana Serrão

domingo, 15 de março de 2015

A rainha manda...: It Happened One Autumn, Lisa Kleypas

O livro que a Patrícia (Chaise Longue) me pediu para ler em Fevereiro para o A rainha manda... foi It Happened One Autumn, de Lisa Kleypas. Uma leitura adorável, que senti como realista, com personagens que gostei de conhecer e acompanhar, e apenas uma pequena excepção que me desgostou.


O livro que decidi que a Patrícia leria em Fevereiro foi Scarlet, de A.C Gaughen, e as impressões dela sobre a leitura podem ser lidas aqui.

A Lillian é arisca e pouco dada às convenções. Sejamos sinceras, tem muito pouco de senhora. Divertiste-te com esta “encalhada”?
Muito mesmo. Especialmente quando ela deixa o Marcus fora do sério, prestes a ter uma apoplexia.

... Agora a sério, é muito interessante ver como o estatuto de outsider dela, sendo uma americana no meio da nobreza britânica, a leva a impacientar-se com as regras de etiqueta minuciosas, e a descartá-las. Nem faz uma excepção para o objectivo que ela devia estar a seguir, de arranjar um nobre inglês para marido.

É refrescante, a atitude dela, especialmente porque é tão diferente das jovens que a rodeiam; porque quer fazer o que lhe apetece sem que ninguém a aborreça, ao ponto de fazer o completo oposto do que lhe pedem exigem; e porque é um óptimo contrapeso à atitude do Marcus. Uma flor de estufa morria ressequida ao lado dele. A Lillian vai dar-lhe luta todos os dias do resto das suas vidas, e é isso que vai fazer deles um óptimo casal. Não vão haver momentos aborrecidos.

Além disso, gosto bastante da relação que a Lillian tem com a irmã e as outras wallflowers, da qual vemos talvez mais neste livro que no anterior. São um grupo fantástico.

Completamente o oposto do seu par, o Marcus é um perfeito cavalheiro inglês. O que achaste dele?
Heh. Perfeito cavalheiro inglês. Se por perfeito cavalheiro inglês quisermos dizer "vulcão prestes a explodir"...

A sério, o Marcus tem esta fachada de frio, rígido e desinteressado, mas depois vai-se a ver e é completamente explosivo. Há uma cena no início do livro em que ele e outros homens do seu círculo estão juntos a falar, e comentam o leito conjugal. Ora o Marcus comenta que basta fazer amor com a sua mulher uma vez por semana, não era preciso mais, que tinha outros afazeres e mais cansa. (Lol.) A piada da coisa é que depois ele não tira as mãos de cima da Lillian, e um dos amigos com quem ele estava o goza por isso. E não esqueçamos a cena final, que é bom exemplo do temperamento dele, no bom sentido. Pelo menos fez-me rir, a reacção dele.

O Marcus é bastante teimoso e mandão, e para tal, é preciso teimoso e meio, personificado na Lillian. Já o disse antes, o par é perfeito, os seus feitios de índole semelhantes encaixam perfeitamente por se desafiarem mutuamente. Mas até tenho medo de imaginar os filhos deles.

Entre as outras meninas e meninos, e respectivas famílias, o elenco de personagens secundárias é practicamente tão irresistível quanto o parzinho. Concordas? Alguém que queiras destacar, seja pela positiva ou pela negativa?
Já disse que gosto bastante das wallflowers; gostei de conhecer melhor a Daisy pela sua relação com a Lillian, e deu para ver um pouco melhor da Evie, especialmente no que toca ao que ela está disposta quando está realmente desesperada. (A miúda tem cojones.)

Entre outras pessoas que gostaria de destacar, vou falar na Mercedes, a mãe das meninas americanas, porque me lembrou imenso da Mrs. Bennet na sua determinação para casar as filhas; e na duquesa viúva, a mãe do Marcus, porque a mulher é simplesmente louca da cabeça. Eu até compreendo alguma atitude mais retrógada e tradicionalista da parte dela, mas quando chegamos ao ponto de tentar magoar pessoas, bem, é ultrapassado um limite.

Sendo um romance, apesar de histórico, este livro centra-se na relação dos protagonistas que é bastante explosiva. Achas que a Lisa fez um bom trabalho no desenvolvimento desta relação?
Oh, very much. Adorei segui-los, e à maneira como o ódio evolui para amor. A sério, e pensar que eles começam o livro a maldizer-se mutuamente! Mas alguns momentos em que se permitem ser mais abertos aproximam-nos (a cena da pêra bêbeda é hilariante), e quando dão por eles, estão firmemente enrolados um no outro. Muito giro.

Parecem-me ser um par em que ambos estão bem um para o outro, porque as suas naturezas combativas podem significar que vão argumentar sobre tudo, mas isso também quer dizer que não há um que vai ceder sempre, pois isso não seria saudável. Nem a Lillian é mulher de ceder; e a resistência dela estimula-o e impede que se torne num tirano.

Mas o que mais apreciei é que apesar de ser um livro histórico, com problemas e dilemas do século XIX, a Lisa faz um bom trabalho na descrição dos sentimentos, emoções e pensamentos dos personagens, e faz com que sejam compreensíveis e credíveis para uma leitora do século XXI. Sinto que ela escreve duma forma bastante realista (com uma pequena, ou não tão pequena, excepção), e agrada-me.

Conta-me: o que gostaste mais nesta história? Houve alguma coisa que te tivesse desagradado?
Gostei: a relação da Lillian e do Marcus, e a maneira como a senti realista, devido ao modo como a Lisa escreve.

Detestei, com o ódio de mil sóis: a recta final do livro. Estava eu tão embalada, a elogiar a Lisa na minha cabeça pelo seu realismo no desenvolvimento da narrativa, feliz da vida por a Lillian e o Marcus se terem resolvido, e tumba, ela tinha de me contrariar e entrar no território de telenovela mexicana.

Porque foi isso que eu achei da cena toda do rapto: altamente incrível, no sentido em que não consegui acreditar na lógica de uma palavra sequer daquilo. Por um lado, se era para nos surpreender com a atitude do perpretador, era escusado passarmos o livro a ter "avisozinhos" sobre o carácter dele, porque o resultado é que a sua acção não é surpreendente - é só estúpida.

Por outro, não há qualquer explicação dada para as suas acções (daí o epíteto de estúpida). Não há foreshadowing de a pessoa estar desesperada a esse ponto. Porque a verdade é que não está. No epílogo, contado na sua voz, contempla outras hipóteses para se arranjar entretanto. E se elas existiam, para quê chegar ao ponto que chegou, arriscando-se a perder amigos e fazer deles inimigos? Alguém que se escapou a levar tiros dos maridos da mulheres com quem andou metido, para agora arricar o pescoço por tão pouco. *facepalm*

Yep, Lisa, isto fez tanto sentido como uma roda quadrada, caramba. O pior é que tenho medo que isto me estrague o próximo livro. Porque tenho a sensação que não vou conseguir desligar a minha voz cínica, que vai estar o tempo todo a gozar com o caminho de redenção que sem dúvida será percorrido, por causa deste acto supostamente imperdoável e irredimível, mas que para mim foi só mal escrito. Não me oponho à sua presença, apenas à maneira como foi apresentado.

A única coisa boa disto tudo é ter o Marcus à porrada numa estalagem. A noção disto foi tão hilariante, que durante a cena me deu um ataque de risota dos bons. Não conseguia parar de rir com a ideia do estóico Marcus perder a cabeça e andar à porrada.

Achas que a autora apresentou bem o “fosso” existente entre americanos e ingleses, nobres e novos-ricos?
Eu gostei da abordagem dela. É uma época tão rica, esta em que os americanos tinham feito a vida no seu país, e traziam a sua riqueza para Inglaterra, procurando validação casando as filhas com nobres ingleses, pois à riqueza só faltava aliar o título. E a nobreza recebia os americanos com sobranceria, deprezando-os por não aderirem completamente a uma estrutura social altamente estruturada e regrada.

E ao mesmo tempo, necessitando deles, pois nem sempre os títulos significavam prosperidade, e muitos nobres estariam na penúria não fossem as herdeiras americanas com os seus dotes, er, avantajados. A Lisa consegue explorar bem um pouco das diferenças entre os dois lados, os conflitos culturais e sociais, e espelhar a situação nas circunstâncias dos personagens. Não podia pedir mais.

Para além de ser adorável, um dos grandes pontos positivos da escrita da Lisa é a sua capacidade sensorial, pois quase que não só nos coloca lá como é capaz de nos fazer ver e sentir o mesmo que as personagens. Concordas?
Sim, creio que sim. Como disse, senti grande parte da narrativa como real, muito graças a como a Lisa escreve. Além disso, a sua escrita é bem imersiva e cativante, e ler os seus livros é uma experiência prazerosa. Passei um bom bocado com o livro (com uma pequena excepção), e sei que não será a última vez que lerei a autora (se bem que é melhor esperar um bocadinho para me esquecer da fúria com este fim).

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O livro escolhido pela Patrícia para eu ler no próximo A rainha manda... é:

A Árvore do Verão, Guy Gavriel Kay
Esta escolha este mês vem de um instinto qualquer. Ao deparar-me com este livro nos livros por ler da p7 não consegui deixar de pensar que ela apreciaria o trabalho de Guy nesta trilogia, mesmo que seja mais bruto em termos de matéria do que por exemplo, Os Leões de Al-Rassan. Para além de ser uma leitura leve, é um regresso às origens e a um autor que ambas apreciamos. Espero que ela goste e que não tenha vontade de me bater a seguir.

Nunca, querida, só me ouvirias a resmungar muito. Mas não creio que este autor me dê vontade disso, eheheh.

Podem descobrir o livro que sugeri à Patrícia para Março, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

sexta-feira, 13 de março de 2015

The DUFF, Kody Keplinger


Opinião: Ah, finalmente percebo o encanto desta autora, e posso dizer que não fiquei imune. Ela era muito nova quando escreveu e publicou este livro, levando a algumas imperfeições e ingenuidades; mas o talento está lá, e ela escreve com uma voz tão honesta e realista sobre adolescentes que eu devorei o livro.

A Bianca é uma rapariga perfeitamente normal, com uma voz deliciosa de acompanhar. Sarcástica, cáustica, pessimista, e usando aquela atitude tipicamente jovem de "eu sei tudo, ou pelo menos sei mais do que os outros", combinando com uma série de inseguranças derivadas das situações por que passa no livro. Acho que é esse balanço que torna tão credível ler sobre ela e a sua história, porque ela tem 17 anos, não sabe tudo sobre o mundo (apenas pensa que sabe), e vai fazer asneiras a torto e a direito, obviamente.

Entra em cena o Wesley, o "Zé vai com todas" lá do sítio, que comenta com ela se pode falar um bocadinho com ela, explicando que é a DUFF do grupo de amigas dela, a rapariga menos atraente do grupo, e que se for visto a ser simpático com ela, é possível que as amigas lhe dêem bola. Ora a Bianca explode, e as reacções dela que se seguem são imprevisíveis mas com resultados muito divertidos.

Gostei que a história tivesse um olhar brutalmente honesto sobre sexualidade nesta idade. Os americanos às vezes gostam de fingir que ninguém abaixo de 18 anos tem sexo, mas é claro que isso não é verdade. E este acaba por ser um olhar positivo, porque há sexo seguro, e porque se tenta derrubar etiquetas de "galdéria" e afins. É claro que não é tudo fácil, a própria Bianca tem dificuldade em largar essa atitude crítica sobre o que as outras mulheres e jovens fazem, mas o importante é que aprende com os erros.

A questão da DUFF também é muito interessante de seguir, precisamente por causa das etiquetas, as que damos a nós próprios, e as que damos aos outros. Por vezes deixamo-nos dirigir por aquilo que elas representam, e não por aquilo que queremos ser e fazer. Achei tão giro a Bianca ver que as amigas também tinham momentos em que achavam que eram as DUFFs do grupo, o que lhe permitiu perceber que todos temos inseguranças, e que as expectativas dos outros não devem condicionar as nossas.

Além disso, a Bianca tem uma situação complicada em casa, com o divórcio dos pais, e um, er, "demónio" do passado do pai que o volta para o assombrar, e além de serem o mote para os acontecimentos do livro, gostei de seguir o percurso que ela fez para lidar com isso. Custou-me vê-la fechar-se, esconder coisas, afastar-se das amigas, procurar distrações, negar o óbvio, mas são reacções muito humanas, e compadeci-me dela. Na sua situação, quantos não fariam o mesmo?

No entanto, a coisa que mais fantástica de seguir foi a relação da Bianca com o Wesley. A coisa começa com um impulso da Bianca, nascido da frustração com o resto da sua vida, mas evolui para uma situação em que se percebe que ambos procuram conforto físico como forma de lidar com as faltas que outros na sua vida deixam, por omissão ou falta de comparência.

Apesar de a relação começar por ser uma de amor-ódio, percebemos que têm mais em comum do que admitiriam de início, e os desgraçados também percebem, só que têm dificuldade em admiti-lo. A certa altura são adoráveis juntos, mesmo quando não percebem que aquilo já não é só físico, e a parte final é fofa. Pela tentativa de mudança de atitude do Wesley, que queria genuinamente ser diferente, e pela asserção da Bianca, que diz que não vai mudar por ninguém. Teimosa, mas sabe o que quer, e é isso que gosto nela.

O ponto negativo que posso apontar é a inexperiência da Kody a nível de escrita, que se traduz numa história que podia ser mais completa. Há cenas que eu gostava que ela tivesse escrito, principalmente mais cenas da Bianca e do Wesley, para preencher melhor a imagem da sua relação. E de certo modo, a história tem aquele tom clássico, a pender para o cliché - mas ao mesmo tempo a Kody faz umas coisas interessantes com os lugares-comuns e dá-lhes uma volta.

É um livro pequenino, bem giro, que se devora e que encanta pela escrita da autora e pelo tom sincero com que escreve. Pelas personagens que dá gozo acompanhar e pela história simples, mas com significado. Não será a última vez que leio esta autora.

Páginas: 352

Editora: Hodder & Stoughton

terça-feira, 10 de março de 2015

Entre o Agora e o Sempre, J.A. Redmerski


Opinião: Esta é uma opinião estranha e complicada de fazer. Gostei muito do primeiro livro. Foi uma história cativante, com uma escrita absorvente e realista, que me fez virar as páginas vorazmente. No entanto, um certo desenvolvimento no final fez-me comichão. Para uma história tão realista, sobre quebrar com o que é esperado que se faça, acabou por tomar a via convencional, usou o cliché. Esticou um bocado a corda nesse aspecto. Além disso, a sinopse deste livro sempre me fez pensar que esse desenvolvimento seria desfeito, o que me fez na altura questionar ainda mais a sua presença.

O que tenho a dizer é que este último sentimento se estendeu a boa parte desta leitura. Oh, continuo a gostar muito da J.A. Redmerski e da sua escrita, de como ela escreve a sua história e os seus personagens, e posso dizer que apreciei voltar a acompanhar a Camryn e o Andrew. Apenas... questiono a existência deste livro. Não sei se trouxe algo de novo, e dentro da história que conta podia ter inovado. Assim, parece mais do mesmo, em partes. (Irónico se tomarmos em atenção que os personagens neste livro se tornam quase doutrinários ao falar de não fazer o esperado. Não era preciso tanta veemência para depois dar um tiro no pé.)

É que depois da "tragédia", a Camryn e o Andrew voltam à estrada, para se "reencontrarem", e os caminhos que percorrem são diferentes do livro anterior, mas a viagem é feita nos mesmos moldes. A certo ponto voltam a New Orleans, e a Camryn comenta, ao fim de um dia de visita, que devem partir, porque em NO só vão tentar reviver as emoções fortes da visita anterior, em vez de recordá-las e fazer novas memórias.

Curioso, foi assim que me senti durante boa parte do livro, especialmente nesta fase da viagem. A Camryn e o Andrew falam de viajar para fora, ver o mundo, e eventualmente acabam por fazê-lo mais à frente, noutro contexto, mas pergunto-me se viajar pelo mundo não teria sido uma boa aposta para esta viagem principal deles no livro. Seria uma inovação em relação ao livro anterior, e poderia servir o mesmo propósito.

Uma coisa que me deixa na dúvida são os saltos temporais. O fascínio do primeiro livro consistia em viver o momento, sem interrupções. Neste livro, há alguns saltos no tempo. Durante a viagem principal, e a parte inicial do livro, até fazem sentido; não precisamos de ver tudo, apenas os destaques. Mas mais tarde o par protagonista chega a viajar pelo mundo, e com um novo elemento presente, e adorava poder ter visto mais disso. Teria sido verdadeiramente interessante de acompanhar, é um novo desafio para eles.

Outra coisa que me desanimou é o contexto em que os saltos temporais são feitos na parte final do livro: para nos mostrar flashes da vida futura da Camryn e do Andrew, e nessa medida são bastante convencionais, parecem feitos para satisfazer a autora e os leitores, não porque a história os pedia. Claro, é muito bom ver o que lhes aconteceu, mas como não são mais preenchidos, não sinto que a história necessitasse mesmo deles. A certa altura dei por mim cansada, porque o livro nunca mais acabava, e sentia a repetição.

O capítulo final, com uma nova personagem, não é particularmente importante, porque não tivemos oportunidade de a conhecer, saber quem é como pessoa, preocupar-mo-nos com o que lhe acontece. Só lá está pela relação que tem com o casal protagonista. Gostava mesmo que a autora me tivesse feito ficar mais investida na personagem.

Nem tudo é mau, no entanto. Na verdade, se tivesse de o classificar, daria a este livro uma boa nota. A única razão para me queixar tanto é porque me sinto frustrada por não lhe poder dar uma nota excelente, como teria dado ao primeiro livro. Porque as coisas de que gostei anteriormente estão lá. Uma escrita emocionante e emocional. Personagens realistas e que dá gosto conhecer e acompanhar. Uma história que cativa e apela ao bichinho viajante dentro de todos nós.

Passei muitos bons momentos com estes personagens anteriormente, e por isso dá um gozo enorme voltar a estar com eles, saber o que lhes aconteceu, encantar-me e emocionar-me com o que enfrentam, divertir-me com as suas peripécias ao viajar. A noção das mudanças na sua vida neste livro é bem intrigante e gosto bastante da ideia de os ver neste novo papel.

Enfim. Continua a ser um bom livro, e uma autora fantástica, e uns óptimos personagens. Apesar de todas as lamúrias, posso genuinamente dizer que passei um bom bocado com a leitura; só me sinto frustrada porque queria e esperava mais e melhor, o que creio que a autora é capaz de fazer.

Uma nota para a tradução. Há uma palavra que é usada ao longo da história e descreve a situação da Camryn e do Andrew, mas que não posso dizer qual é por ser um spoiler. O meu problema é a palavra que a tradutora usa em português para ela - é uma palavra tão antiquada, dos tempos da minha avó. Parece-me que ninguém da geração da Camryn e do Andrew a usa, por isso gostava de saber porque raios é que a tradutora a foi usar, esquecendo-se da audiência-alvo do livro. Bolas, é que é um termo tão arcaico e inadequado, e dei por mim a ranger os dentes cada vez que tropeçava nela.

Título original: The Edge of Always (2013)

Páginas: 400

Editora: Presença

Tradução: Fátima Andrade

domingo, 8 de março de 2015

Uma imagem vale mil palavras: Once Upon a Time Temporada 1 (2011-2012)

Era uma vez uma série de televisão, que estreou no seu país de origem, os EUA, há qualquer coisa como três anos e meio, tanto tempo como aquele em que eu tenho vindo a ouvir falar dela. Coisa que é uma bênção e uma maldição. Sim, porque depois de tanto tempo existem expectativas e ideias pré-concebidas, e se umas me podem preparar para o que viria a ter à frente, outras podiam dar uma ideia completamente errada da coisa e deixar-me completamente confusa.

Digo isto porque ao começar a ver a primeira temporada, e mesmo depois de a ter terminado, tenho uma sensação de... estranheza. Acho que esperava algo completamente diferente, ou pelo menos com uma dinâmica diferente. Não é necessariamente mau, apenas estranho por me obrigar a ajustar as minhas expectativas e ideias. Talvez um pouco desconcertante. De qualquer modo, é por esta razão que eu odeio ter expectativas sobre coisas, e ainda detesto mais o fenómeno de hype sobre algo, e fujo disso como se não houvesse amanhã.

Once Upon a Time explora um mundo de contos de fadas partilhado que é roubado a si mesmo pela Rainha Má da Branca de Neve, numa maldição que transporta os seus habitantes para uma cidade (Storybrooke) do mundo real, o nosso mundo, mas que também os rouba das suas memórias (e por extensão, das suas personalidades), e os mantém congelados no tempo. Pelo menos, até um salvador profético quebrar a maldição.

Acho que a coisa que mais me cativou e acabou por puxar para a série foi o conceito de os contos de fadas existirem no mesmo espaço e (mais ou menos) mesmo tempo. Há uma interligação entre as histórias e os personagens que é demasiado boa para ser ignorada. Vá lá, a Branca de Neve e a Capuchinho Vermelho a serem amigas? A lenda do Rumplestiltskin a cruzar-se com a Cinderela e a Bela e o Monstro? É quase demasiado bom para ser verdade. E é muito fixe ver todas as pequenas conexões a serem feitas.

Intercalada com as histórias de vários personagens de contos relativamente bem conhecidos, temos o desenvolvimento da história da Branca de Neve e do Príncipe Encantado (eles são a modos que os protagonistas, e é contra eles, ou pelo menos contra a Branca, que a Rainha Má tem um problema).

E os escritores aproveitaram muito bem os espaços no conto original para criar a sua própria história, muito mais rica, e deliciosa de explorar. Os vários pedaços dela são apresentados durante a temporada, nem sempre por ordem, e por isso foi tão bom tentar montar o puzzle. Aliás, no fim disto tudo eu adorava ver uma montagem da história deles e dos outros personagens por ordem cronologica, porque está tudo interligado e tenho a sensação que me escaparam coisas, de certeza.

Entretanto, em quase todos os episódios, a exploração dos flashbacks a mostrar-nos quem estas pessoas eram estão intercalados com cenas em Storybrooke, no presente, a mostrar-nos quem estas pessoas são. Acabou por se revelar interessante, porque as cenas do presente são em parte uma reflexão das cenas do passado, e também porque mostra o impacto que a maldição tem neles.

Sem as suas memórias, muita gente porta-se duma maneira diferente, ainda que reminiscente, do que era na terra dos contos de fadas. O Grilo Falante (sim, ele é um personagem) tem alguma dificuldade em manter-se uma bússola moral; a Branca de Neve, a maior visada na vingança da Rainha Má, vê o seu espírito destemido castrado pela maldição, apesar de manter um bom sentido moral; e o Príncipe Encantado, bem, nem sei se hei de ter pena dele ou vontade de lhe dar um abanão.

Foto de família? Heh.
Essencialmente esteve 28 anos em coma, e quando acorda nem sequer tem memórias fabricadas pela Rainha Má como os outros personagens, o que provoca um grande vazio moral e mental (de certo modo, é como uma criança) que o leva a meter a pata na poça durante boa parte da temporada. Grande parte das vezes em que isso acontece deu-me vontade de bater com a cabeça nas paredes, mas pronto, tentei manter em mente o efeito da maldição para não me saltar a tampa. De qualquer modo, dá um bocado de pena vê-lo tão avariado.

O arco narrativo principal da temporada foca-se na maldição e em como pode vir a ser quebrada, e o papel que o salvador profético, a Emma, virá a ter nela. É que a Emma é a filha da Branca de Neve e do Príncipe Encantado, nascida pouco antes da maldição ser lançada, e enviada para este mundo com o potencial de vir a quebrar a maldição. E a Emma cresceu no mundo real, e tem agora 28 anos, enquanto que os pais estiveram presos este tempo todo em Storybrooke, sempre com a mesma idade. O que quer dizer que por esta altura a Emma tem a idade deles, ou até pode ser mais velha, nunca se sabe. Uma noção deveras bizarra, mas que pode vir a dar umas cenas engraçadas.

Parte da piada de acompanhar a série passa também pelas maquinações da Rainha Má e do Rumplestiltskin, que às vezes parecem estar a jogar um jogo de xadrez completamente à parte, enquanto toda a gente ainda está a jogar à cabra cega. São simplesmente deliciosos de acompanhar, e acho que gostava de rever a temporada para apanhar algumas coisas sobre eles e sobre o que sabiam e quando o sabiam. (Isto aplica-se ao todo da série e dos personagens, na verdade.) Em retrospectiva, há coisas que começaram a ser planeadas com muita antecedência e acabaram por acontecer como pelo menos um deles esperava, por isso é de louvar o nível de planeamento que este tipo de coisa envolveu.

A série tem algumas reviravoltas que são engraçadas de descobrir, mesmo quando já tinha adivinhado algumas delas - adivinhei pelo menos a do Capuchinho Vermelho e a do August Booth. Enfim, se estou a ver uma série sobre contos de fadas à espera de reviravoltas, é certo que vou tropeçar nalgumas antes de tempo. Não me fez diferença saber de antemão.

Sobre o elenco, já mencionei alguns personagens que gostei de acompanhar; posso mencionar também a Capuchinho/Ruby, cuja personalidade é fantástica; a Emma, pelo seu cepticismo e pelo crescimento ao longo da temporada; e já agora o xerife, por duas coisas. Uma, porque tive pena que desaparecesse tão cedo, já que achei que podia ter mais coisas a contar. Duas, porque é interpretado pelo Jamie Dornan, e se tivessem aguentado mais o personagem talvez ele ainda andasse por ali hoje. Isso quereria dizer que hoje se calhar ele não era o Christian Grey, e eu teria sido poupada a piadas sobre algemas por parte da minha irmã (ela tem queda para piadas parvas) durante a extensão das suas aparições na série. Enfim, não se pode ter tudo.

Há tanta coisa mais, tantos pequenos detalhes, que eu gostava de comentar (os vestidos! ahhhh morri e fui para o céu quando vi os vestidos da Belle), mas podia ficar aqui o resto do mês a enumerá-los, o que não é propriamente prático. Resta-me dizer que apesar de ter estranhado a princípio, acabei por entranhar e ficar cativada pela história (apesar de não ser fã do ritmo do enredo, também não vejo como poderia ser feito de outra maneira), e estou bastante curiosa para ver o que se segue para os personagens. Não vou a correr ver, mas gostava de ver brevemente, para não me esquecer do que vi.

sábado, 7 de março de 2015

Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Patrick Ness, Siobhan Dowd, Jim Kay


Opinião: É um pouco difícil explicar este livro. O tema central é algo que é extremamente subjectivo, dependendo muito das experiências pessoais de cada leitor, que hão de colorir a sua percepção da história. No entanto, acredito que é uma história com a capacidade de cativar e comover, e que vale a pena apostar nela, pela abordagem única que faz.

Recomendaria Sete Minutos Depois da Meia-Noite porque a maneira como é escrito e contado lembra-me um conto de fadas, daqueles à antiga. No sentido daquelas histórias sombrias e cruas, que falam de verdades terríveis que carregamos cá dentro. Aquele tipo de coisas que não nos atrevemos a verbalizar, e por isso criamos histórias, como esses contos de fadas, para tentar lidar com isso.

O protagonista Conor é um miúdo de (apenas) 13 anos. E no entanto, as circunstâncias obrigaram-no a crescer. Um pai ausente e absorvido pela nova família. Uma avó distante e dura. Uma mãe fragilizada pela sua condição. Uns miúdos da escola que se metem com ele.

Diria que a mais-valia deste livro é que Patrick Ness escreve honestamente. Não infantiliza o Conor. Por vezes é demasiado fácil esquecer do rico mundo interior que uma criança porta; eles compreendem mais do que lhes damos crédito, apenas não tiveram a oportunidade de desenvolver mecanismos para se protegerem de realidades terríveis, do sofrimento e do luto, e o que parece inocência e desconhecimento pode esconder uma forma de tentar lidar com a questão.

Adorei ler o percurso do Conor na história, passei o tempo com o coração a espremer-se de aflição, de impotência por não poder ajudá-lo e protegê-lo, porque ninguém merece passar por este tipo de experiência, apesar de eventualmente nos acontecer a todos. Só que ele é tão novo, e a noção de que isto ia marcá-lo pelos seus anos formativos é aflitiva.

Achei tão interessante a presença do monstro, a transfiguração do teixo que Conor e a mãe vêem da janela da cozinha. Gostei muito da dúvida que deixa sobre a sua natureza, mas ainda mais sobre como é um reflexo e uma manifestação dos problemas e dúvidas interiores que Conor enfrenta, e como lhe permite exteriorizar (nem sempre de maneira saudável, mas ao menos está a deitar cá para fora) tudo o que sente.

O fim, bem, podia dizer que é perfeito, mas soa-me mal, tendo em conta o conteúdo, por isso vou dizer que é adequado tendo em conta o desenvolvimento do enredo até aí. É triste, mas também é catártico, e nesse aspecto quase que deixa um bocadinho de esperança.

È verdadeiramente trágico que Siobhan Dowd não tenho podido desenvolver a história que desejava antes de morrer, mas espero que fosse algo como isto. (A ideia original é dela, mas depois da sua morte a ideia foi apresentada a Patrick Ness para desenvolver numa história.) Por outro lado, vale muito a pena destacar o trabalho de Jim Kay nas ilustrações, cruas, primitivas, mas belas e fascinantes, e acompanhando perfeitamente a história.

Uma última menção à edição portuguesa. Comprei porque queria ler o livro, e porque ainda vou acreditando às vezes em comprar em português para incitar as editoras em publicar mais coisas do género da que estou a adquirir. Contudo, gostava mesmo que a edição fosse um pouco melhor. O papel é daquele brilhante/de toque avernizado (nunca sei como se chama) - o que já é bom, não terem tentado imprimir as ilustrações no papel normal que a editora usa.

Só que esse papel também tem uma gramagem maior, fazendo o livro bem mais pesado que alguns com o dobro do tamanho. Sinto que o livro precisava de uma encadernação melhor, de algo que suportasse melhor o papel. Nem badanas tem! Além disso, dei por mim com muito medo de abrir bem o livro nas ilustrações em dupla página. Não por não querer dobrar a lombada, mas achei que o livro era frágil o suficiente para estar em perigo de se desfazer nas minhas mãos se o tentasse abrir mais.

Acabei por ficar a desejar ter comprado em inglês em hardcover, porque com esse eu teria toda a confiança para abrir o livro à vontade. É uma pena, porque merecia uma edição das boas. Além disso, que raios é aquela tralha toda na capa? A citação do John Green é completamente desnecessária (podia ser relegada para a contracapa), e as bolinhas azuis dos prémios só entopem e ajudam a distrair da arte de Jim Kay (again, deviam estar na contracapa). Que péssimo trabalho de design.

Por outro lado, apesar de ter torcido inicialmente o nariz a terem mudado o título, acabei por ficar a gostar bastante dele, especialmente depois de compreender o seu significado - é bastante adequado. E em nota final, louvo o pequeno extra que o livro traz, um poster com uma das ilustrações de Jim Kay. Muito bom.

Título original: A Monster Calls (2011)

Páginas: 216

Editora: Presença

Tradução: Ana Cristina Pais